sexta-feira, 2 de março de 2012

Aventura #4 - Contaminação arcana



Dia zero – Fim de tarde – Algum lugar no reino de Lusitens

            A batida lenta de cascos contra o chão de cascalho, o chacoalhar de uma carroça de madeira e o canto dos pássaros eram os únicos sons que podiam ser ouvidos pairando no ar morno de verão. Os aventureiros cavalgavam calmamente por uma estrada arborizada e florida, cansados e desejosos de chegar a um lugar onde pudessem dormir em uma cama, para variar.
            - Tem certeza de que existe uma cidade logo à frente, Lael? – perguntou Jimhold, o guerreiro e líder, rompendo o silencio.
            - Quase certeza. – respondeu o bardo, consultando mais uma vez um mapa – Ao menos está marcada aqui, às margens de um lago.
            - Como se chama a cidade? – perguntou Draenis.
            - Hmmm, Lago das Macieiras. – respondeu Lael, lendo no pedaço de pergaminho.
            - Lago das Macieiras?! – se surpreendeu o líder – Que raios de nome é esse?
            - Se me lembro bem, essa cidade é famosa por suas maçãs especialmente suculentas, cultivadas às margens do lago e exportadas para as regiões próximas. – começou a responder o bardo, puxando de sua mente – Ela também sobrevive da venda de peixes do lago e do turismo.
            - Turismo?! – perguntou Liana, confusa.
            - Sim. A cidade possui muitas fontes e casas de banho, e atrai nobres e grandes burgueses de muitas regiões. O Senhor dessas terras inclusive abriu mão de seu direito exclusivo sobre esses bosques, e cobra para deixar homens ricos caçarem aqui. 
            - Finalmente, um bom lugar para descansarmos dessas viagens e acampamentos desgraçados. – comentou Azmuth. Ao invés de montar seu cavalo, estava sentado sobre a carroça, onde era mais fácil continuar a estudar seus livros de magia.
            - Bom ou não, não ficaremos muito tempo. – contrapôs Jim – Prometemos não parar nem criar vínculos em lugar algum.
            - O que não nos impede de tirar alguns dias de folga... – respondeu o mago, teimoso.
            O guerreiro pretendia retrucar, mas deteve-se ao notar uma sombra em movimento mais à frente, em meio às árvores. Dalariok forçou seus olhos naquela direção, coçando a barba que cobria a ponta do queixo.


            - Tem a forma de um cervo. – disse Liana, sua vista mais apurada que a dos demais – Mas há algo de estranho com ele.
            - Estranho em que sentido? – perguntou Jim, pousando as mãos instintivamente sobre os cabos das espadas.
            - Para começar, parece bem maior que um cervo comum. – respondeu a ranger, ainda mirando a sombra – E não se move como um. É difícil explicar.
            - Um ou dois de nós devem ir furtivamente à frente, investigar. – decidiu o líder – Algum voluntário?
            - Eu vou. – respondeu Liana.
            - E eu. – acrescentou Lael.
            - Eu vou... – começou Dalariok – ficar aqui mesmo! – terminou, rindo.
            Draenis deu uma risadinha discreta enquanto os demais levavam a mão ao rosto e balançavam a cabeça, sem achar a menor graça.
            O grupo parou os cavalos e ficou aguardando, enquanto Liana e Lael desapareciam em meio às árvores à esquerda da trilha. Alguns minutos se passaram, sem qualquer sinal dos dois. De repente, um gemido feral, grave e volumoso, foi ouvido, e o ladino foi atirado para o meio da estrada, onde caiu rolando. Quando os aventureiros correram em sua direção, uma criatura saiu de trás das árvores.
            Sua forma realmente lembrava a de um cervo ou alce. Contudo, era completamente deformado, começando pelo tamanho: media mais de dois metros de altura (o dobro de um cervo comum) e devia pesar mais de duzentos quilos de puro músculo. Seu couro era grosso e seus olhos, vidrados. Não parava de se mover e salivar por um segundo sequer.
            As flechas e virotes de Dalariok e Liana alcançaram primeiro o animal, atraindo sua atenção e impedindo-o de empalar Lael com sua galhada. Mas os projéteis mal atravessaram o couro, e derramavam no máximo alguns filetes insignificantes de sangue. Azmuth tentou colocar a criatura para dormir, mas a magia não teve efeito sobre ela.
            O cervo começou uma corrida desembestada em direção ao grupo. Jim e Garrukk prepararam-se para fazer-lhe frente. Porém, antes que o animal os alcançasse, Liana conseguiu laçar suas patas traseiras com uma corda, fazendo-o cair no chão. O bárbaro adiantou-se e segurou seus chifres, mas o cervo gigante tornou a se erguer com um salto e a correr em círculos, arrastando Garrukk de costas no chão. Por fim, Jimhold conseguiu saltar sobre o pescoço da criatura e atravessar seu pescoço com a espada curta.
            - O que deu nesse bicho? – perguntou Lael, aproximando-se aliviado – Cervos não atacam dessa forma...
            - Nem medem dois metros de altura. – respondeu Dalariok.
            - Azmuth, pode dar uma olhada nele? – perguntou Jim, limpando o sangue das mãos.
            O mago examinou magicamente o animal por alguns minutos; especialmente seus olhos, sangue e saliva.      
            - O efeito é certamente mágico, mas não posso ter certeza de mais nada sem um exame mais detalhado. – Azmuth deu seu veredicto – Pode ter sido lançado diretamente sobre ele, mas creio que seja um efeito colateral de algo que ele comeu ou bebeu.
            - De qualquer forma, não há motivo para perdermos tempo aqui, e já estamos todos cansados da viagem. – concluiu Jim, voltando a subir no cavalo e esticando a coluna – Vamos logo em direção à cidade, e lá descobrimos se alguém sabe alguma coisa sobre isso.

Dia zero – Noite – Cidade de Lago das Macieiras

            Menos de duas horas de cavalgada depois, os aventureiros chegaram à entrada da cidade. Os portões, apesar de vigiados por um guarda, estavam abertos, e os aventureiros tiveram uma surpresa assim que entraram.
            Não havia nada de bonito ou paradisíaco na cidade; nada que pudesse motivar qualquer um a visitá-la. As ruas estavam escuras e mal iluminadas como em qualquer cidade, além de bastante desertas. Era possível notar muitos estabelecimentos fechados e abandonados. Os aventureiros passaram por muitas fontes em seu caminho, é verdade, mas estavam todas secas e rachadas. Uma ou outra tinham um palmo de água suja acumulada no fundo, criando insetos e sapos.
            - Que lugar lindo! – comentou Azmuth sarcasticamente – O tipo de ambiente para onde um nobre viajaria apenas para descansar.
            - Garoto, você precisa atualizar seu guia de cidades. – falou Dalariok a Lael, com um sorriso irônico no rosto.
            - Não faz diferença. – acrescentou Liana – Vamos passar a noite, e amanhã partimos. Não planejávamos mesmo ficar muito tempo.
            O grupo prosseguiu até uma taverna e hospedaria indicada pelos guardas no portão. Deixaram seus cavalos e carroça no estábulo e entraram, carregaram o pequeno baú de tesouro escondido em um saco velho. O estabelecimento estava parcialmente cheio, mas silencioso. O clima no ar era, de modo geral, de infelicidade. Uma taverna funciona como o termômetro de toda a região onde está localizada.
            Os aventureiros alugaram quartos (a hospedaria estava praticamente vazia), deixaram as armas e equipamentos de modo geral neles e voltaram para a área comum. Pediram suas bebidas e sentarem-se juntos, deixando a procura por informações para Lael. A maioria da população não estava de muito bom humor, mas o bardo conseguiu extrair tudo o que precisava da filha do taverneiro, que ficou apaixonada pelos cabelos loiros e esvoaçantes do sonso bardo.
            - Descobri por que a cidade está tão decaída. – disse Lael, após voltar para junto do grupo – E tem relação com nosso probleminha na estrada.
            - Pare com essa encenação e diga logo. – ordenou Jim.
            - Sabe o lago que dá nome à cidade? – começou o bardo – Essas pessoas retiravam toda a sua água e sustento dele. Mas, de uns tempos pra cá, o lago parece estar sendo afetado por alguma praga. As plantas e os animais que bebem de suas águas estão morrendo ou sofrendo mutações. O povo daqui perdeu a água, o pescado, boa parte do plantio e, é claro, os visitantes ricos. A cidade já foi relativamente grande e movimentada, mas há pouco tempo caiu em desgraça.
            - E ninguém ainda identificou que tipo de praga é essa? – questionou Liana, imediatamente interessada.
            - Pelo que eu soube, não. – respondeu Lael – Os poucos magos da cidade só conseguiram identificar que o problema tem alguma origem mágica.
            - Precisamos ajudar a curar essa praga. – disse a ranger, determinada.
            - Calma. – pediu Jim – Não sabemos ainda se isso é um caso para nós.
            - Tem mais! – continuou o bardo – O Senhor dessa região e o Conselho da cidade estão oferecendo uma recompensa para qualquer um que determine a origem do problema e os ajude a resolvê-lo.
            - Agora a proposta começa a soar mais interessante... – comentou Dalariok.
            - Não precisamos de uma oferta de ouro pra fazer alguma coisa. – respondeu Liana, séria e contrariada.
            - Não compreendo. – Garrukk parecia ligeiramente confuso – Contra quem precisaremos lutar?
            - Provavelmente ninguém. – respondeu Azmuth – Mas nunca se sabe...
            - Não tenho interesse nisso, então. – disse o bárbaro – Quero apenas lutar, matar e me tornar mais forte.
            A discussão prosseguiu por algum tempo. Liana e Draenis eram a favor de ficar e resolver a praga do lago, Dalariok e Garrukk eram contra e os demais não tinham ainda uma opinião definida. Jimhold ordenou que a decisão fosse tomada no dia seguinte, por votação. Por fim, todos foram dormir.

Dia um – Manhã – Cidade de Lago das Macieiras

            Os aventureiros estavam todos na feira da praça principal da cidade comprando suprimentos, divididos em duplas ou trios. A feira devia ter sido grande antes da chegada da praga, mas havia se tornado bastante modesta e o grupo estava tendo dificuldades em encontrar os suprimentos dos quais necessitavam. Enquanto procuravam juntos por carne salgada, Jimhold e Azmuth discutiam se deviam partir logo ou ficar para investigar o problema mais a fundo.
            - Os magos da cidade confirmaram que a praga tem origem mágica. – argumentou o guerreiro – Isso não desperta sua curiosidade?
            - Meus olhos estão voltados para os segredos do Arcano e dos Mundos Paralelos. – começou o mago, com um ar de superioridade – Meu objetivo é desvendar os mistérios que regem o Universo, não quebrar pequenas maldições de cidadezinhas de interior.
            - Quer dizer que estamos lidando com uma maldição? – sugeriu Jim, sorrindo.
            - Provavelmente. – respondeu Azmuth, dando de ombros – Ao menos os magos idiotas daqui acham isso. Quem liga? Não tenho o menor interesse em ajudar este lugar desprezível.
            - Azmuth, seja razoável. – insistiu o líder. Sabia que ordens ríspidas funcionavam com todos do grupo, exceto com o mago – Somos heróis, temos a obrigação de ajudar essa gente.
            - Não somos heróis, somos aventureiros. Às vezes até mercenários. – contrapôs o mago – Não temos obrigação de ajudar ninguém, a não ser que recebamos alguma coisa em troca.
            - Então vamos ajudar essa gente e ganhar a tal recompensa!
            - Sequer sabemos se essa recompensa existe mesmo. – argumentou Azmuth – Ou de quanto é seu valor. Nem possuímos qualquer garantia de que seremos pagos.
            A discussão prosseguiria, mas foi interrompida por um som de pigarro, seguido por uma voz feminina que falou em tom irônico:
            - Ora ora ora. Se não é meu velho amigo Azmuth!
            Os dois aventureiros se viraram rapidamente. A dona da voz era uma jovem mulher, com cerca de vinte e dois a vinte e três anos. Os cabelos claros estavam amarrados em um coque na nuca e os olhos claros escondiam-se atrás de óculos pequenos de lentes grossas e quadradas; a moça devia ser bonita, mas mantinha essa beleza escondida por trás de uma máscara de seriedade e disciplina régias. As vestes, assim como as de Azmuth, evidenciavam sua ocupação arcana.
            - Não me lembro de ser seu amigo, Sylvia. – respondeu o mago, mais azedo que nunca.
            Jim não conhecia a moça e sentiu que estava sobrando, mas ela também estava acompanhada por um homem. Ele tinha longos cabelos negros, uma grande cicatriz no queixo e vestia uma capa escura com capuz por cima de roupas negras. Ficou encarando Jim, no mais completo silêncio.
            - Não precisa ser tão deselegante. – comentou Sylvia, ainda sorrindo ironicamente – Não o vejo desde que terminamos a Academia.
            - E tudo estava ótimo assim. Pena que nosso encontro foi forçado por esse infeliz acaso. Espero que isso tudo termine logo.
            - Não está feliz em me ver? – quanto mais irritado ficava Azmuth, mais feliz ficava a moça – A propósito, o que está fazendo por aqui?
            - Não é da sua conta, é? – perguntou o mago, impaciente.
            - Está agindo feito uma criança. Deixe-me adivinhar: pretende resolver a praga que está afetando esse lago, para então ganhar a recompensa.
            - Não volto minha mente para assuntos tão fúteis e triviais em troca de algumas esmolas. – agora era a vez de Azmuth ficar por cima – Não sou como você.
            - Melhor mesmo nem tentar. – Sylvia virou rapidamente a discussão – Não conseguiria resolver o problema antes de mim, de qualquer maneira...
            E, com essas últimas palavras, virou-se e saiu andando, seguida por seu guarda-costas. Azmuth ficou parado no mesmo lugar, observando-a afastar-se e espumando de raiva. Começou a fumar seu cachimbo, ainda resmungando.
            - Vadia desgraçada! – o mago raramente perdia a compostura dessa forma.
            - De fato...
            - A odeio desde meus tempos na Academia Arcana!
            - Ela parece ser horrível mesmo...
            - E ainda acha que não posso vencê-la! Como ousa?
            - Eu acho que você pode...
            - Eu devia era resolver isso tudo primeiro, só para esfregar na cara dela o quão melhor mago eu sou!
            - Tem todo o meu apoio...
            - É isso. Vamos voltar para junto do grupo e anunciar nossa decisão!
            Enquanto seguia Azmuth, Jim ria em silêncio. Convencera o mago a mudar de opinião sem precisar fazer nada...

            Todo o grupo aceitou bem a idéia de ajudar Azmuth em sua pesquisa, exceto Dalariok e Garrukk. Querendo evitar problemas, Jimhold os dispensou para seguirem viagem na frente dos outros. Dalariok dizia conhecer um caminho especial, e o líder mandou-os para encontrá-lo e checar suas condições. Os dois ficaram satisfeitos com a missão e partiram logo.
            Agindo - devido à sua especialidade em magia - como se fosse o líder nesse trabalho, Azmuth mandou todos passarem o dia buscando amostras de água e peixes do lago, além de variadas vegetações que nasciam em suas margens. O mago improvisou um pequeno laboratório em seu quarto de estalagem, onde passou ele próprio o dia todo examinando as amostras e tentando identificar um padrão que revelasse o tipo de magia que estava causando a praga. No fim da tarde, enquanto o resto do grupo todo descansava e bebia junto, Azmuth foi à única biblioteca da cidade, fazer algumas pesquisas.

Dia um – Fim de tarde – Taverna e Estalagem Maçã Dourada

            Jim, Liana, Draenis e Lael estavam sentados juntos em uma mesa de canto, tendo uma conversa leve. Estavam todos cansados de andar de um lado para o outro colhendo amostras, além de decepcionados por não se envolverem em nenhuma aventura ou combate nos moldes em que estavam habituados.
            O bardo havia conseguido comprar uma cesta das famosas maçãs que davam nome ao lago, e agora as admirava estupefato. Cada uma tinha o dobro do tamanho de uma maçã normal, e eram todas inacreditavelmente doces e suculentas.
            - Nunca vi nada como isso. São impressionantes!
            - Não há nada de impressionante nisso. – respondeu a ranger, em tom leve – São apenas maçãs.
            - Apenas maçãs? – perguntou Lael, incrédulo – São gigantes e deliciosas! Valeram cada moeda.           
            - Todas as frutas cultivadas pelo meu povo são assim, porque derramamos sobre elas as bênçãos da Mãe Terra. – disse Liana, sem se impressionar – Vocês erebianos das cidades é que não entendem nada de cultivar vida.
            - O que acham que Azmuth está pesquisando? – perguntou Jimhold, cortando bruscamente o assunto.
            - Como vamos saber? – Draenis deu de ombros – Ele não divide nada conosco.

Dia um – Noite – Biblioteca

            Azmuth caminhou lentamente por entre as estantes de livros, um globo de luz mágica flutuando fantasmagoricamente ao seu lado. A biblioteca - já fechada - estava escura e silenciosa, mas o mago conseguira uma autorização especial para usá-la por estar pesquisando uma cura para a praga que assolava o lago. O lugar não era muito rico em tomos arcanos, mas Azmuth estava buscando algo diferente. Estava consultando livros sobre a história da cidade e seus arredores, procurando algo que encaixasse com a pista que havia descoberto mais cedo em seu laboratório improvisado.
            O som de passos se aproximando o surpreendeu; a biblioteca não deveria estar vazia? Apesar de surpreso, Azmuth não ficou com medo. Quem quer que estivesse se aproximando, fazia barulho demais para ser um provável atacante. O mago virou-se com calma para ver quem era, e se irritou imediatamente. Era Sylvia.
            - Ora ora, o que está fazendo aqui a essa hora, meu querido? – perguntou a maga ironicamente – Mudou de idéia quanto aos... como foi que você disse? “Assuntos fúteis e triviais”, não foi?
            - Não é de sua conta o que estou fazendo aqui. – respondeu Azmuth – Mas se quer saber mesmo: vou curar esta praga antes de você, apenas para esfregar na sua cara o quão melhor eu sou.
            - Você continua competitivo, não? – comentou Sylvia – Mas deixe-me ver a seção na qual está pesquisando. História e registros, é? Quer dizer que acha que a praga é resultado de alguma maldição? Um bom palpite...
            - Por favor, não seja ridícula. – respondeu o mago – Não é uma maldição, e você sabe muito bem disso. Não vai conseguir me confundir, pode desistir.
            - Olha, e não é que ele é espertinho? – a maga sorriu, ainda mais irônica – Mas não adianta tentar, eu estou vários passos a sua frente.
            E com essas ultimas palavras virou as costas e foi embora, sem dar a Azmuth chance de responder.

Dia dois – Manhã – Cidade de Lago das Macieiras

            Azmuth reuniu Jimhold, Liana, Lael e Draenis (Dalariok e Garrukk ainda não haviam retornado) próximo a um dos chafarizes secos da cidade, para comunicar suas descobertas e seus próximos planos. Com todos os outros sentados, o mago ficou andando de um lado para o outro enquanto falava, como um professor.
            - Os poucos magos de meia tigela desta cidadezinha desprezível acreditam que a praga está sendo causada por uma maldição. – começou – Não poderiam estar mais longe da verdade, é claro. Só para começar, as amostras que coletaram para mim apresentavam indiscutíveis sinais de desenvolvimento biológico acelerado, o que não é compatível com nenhum tipo de maldição que eu conheça. E eu conheço muitos tipos.    
            - Se não é uma maldição, então o que é? – perguntou Lael, curioso.
            - Eu vou chegar lá! – exclamou Azmuth, ríspido – Continuando. Se não é uma maldição, então o que poderia ser? Aí começou a parte mais trabalhosa do processo: identificar a causa exata da praga. Tive um palpite, julgando pelos efeitos muito abrangentes, de que não se tratava de uma magia direcionada, mas sim de efeitos colaterais de uma contaminação da água do lago, causada por resquícios de magia mal utilizada. O desafio agora seria identificar a fonte destes resquícios.
            - Anda logo com seu showzinho, Azmuth. – falou Jim – Não temos o dia inteiro.
            O mago ignorou este comentário e continuou no mesmo ritmo:
            - Toda utilização de magia deixa gravado em seu alvo e local de utilização um padrão, uma espécie de assinatura, através da qual é possível rastrear o tipo e origem da magia. Usando métodos nada convencionais de análise mágica, desenvolvidos por mim mesmo, consegui identificar o tipo de magia que causou a praga do lago.
            - E que tipo foi, podemos saber? – perguntou Jim, já cansado da explicação.
            - Uma magia de crescimento. – respondeu Azmuth – Mas isso não é o mais importante. O mais importante é que a assinatura arcana não bate com o sistema que os erebianos normais usam, construído com base no antigo sistema imperial. A assinatura lembra a magia dos gípsios. 
            - O que são gípsios? – perguntou Liana, não familiarizada com a situação étnico-social do continente.
            - Os gípsios são um povo nômade, que vive espalhado por toda a Ereb. – respondeu Lael – E possuem toda uma cultura própria e bastante exótica. – o bardo começou a dedilhar uma música gípsia em seu alaúde.
            - Não apenas uma cultura diferente, como também um sistema de magia arcana muito particular, trazido por eles do oriente. – completou Azmuth
            - Certo, então a magia é gípsia. – disse Jim – O que mais?
            - Passei a noite na biblioteca pesquisando a história desta cidade e desta região, procurando qualquer ligação delas com os gípsios. Acontece que há registros de um antigo assentamento gípsio não muito longe daqui, em uma das margens do lago. Não consegui descobrir se o assentamento ainda existe, mas me parece uma boa idéia investigar.
            - Conseguiu descobrir onde exatamente ficava este assentamento? – perguntou Liana.
            - Melhor ainda, eu encontrei isso. – respondeu o mago, mostrando um mapa extremamente detalhado das margens leste do lago, incluindo a marcação de onde deveria ter se localizado a comunidade gípsia – Um explorador mapeou detalhadamente as margens do lago, muito tempo antes da fundação desta cidade.
            - O que estão esperando então? – perguntou o líder – Arrumem suas coisas, eu vou encontrar um barco.

Dia dois – Tarde – Lago das Macieiras

            Os aventureiros levaram metade da manhã para se preparar e encontrar um pequeno veleiro que estivesse sendo alugado, e mais a outra metade navegando através das águas calmas do lago. Prosseguiram após uma rápida parada para almoçar em uma das margens.
            Logo que avistaram o local marcado no mapa, ainda de dentro da água, notaram o profundo estado de abandono. Era impossível que os gípsios ainda vivessem ali; havia barcos encalhados nas margens, mas estavam todos quebrados e cheios de água no bojo. Ao atracar, perceberam uma grande quantidade de ruínas; eram paredes, estátuas e pilares redondos esculpidos em uma rocha lisa e cinzenta, porém profundamente deteriorada pelo tempo.
            - Gípsios fazem construções de pedra?! – indagou Draenis, confusa – Sempre achei que eles vivessem em barcos, cabanas móveis de madeira, esse tipo de coisa.
            - Não, essas construções são imperiais. – respondeu Azmuth – E possuem muitos séculos de idade. Mas os gípsios gostam de se estabelecer em meio a esse tipo de ruínas. E aqui definitivamente tem restos de um ponto de assentamento deles.
            - Mas apenas restos. – concluiu Jim, decepcionado – E a julgar pelo estado disso, parece que já deixaram de usar este lugar há muito tempo.
            - Nós sabíamos que isso podia ter acontecido. – disse o mago – Mas ainda vale à pena vasculhar esse local, só para garantir. – puxou uma amostra concentrada com a contaminação do lago – Mesmo depois de tantos séculos, as ruínas imperiais ainda emanam uma aura mágica própria, mas vou tentar detectar apenas traços de magia gípsia.
            Azmuth começou a andar por entre as ruínas, entoando palavras no idioma místico e acenando delicadamente com o cetro; conjurando um feitiço de detectar magia. Depois de algum tempo, parou e se virou para seus companheiros.
            - Definitivamente há sinais de magia gípsia por aqui. – falou – Devem ser recentes, pois a magia deles não costuma deixar marcas muito duradoras. E os sinais estão mais intensos nesta direção. – acrescentou apontando para o norte, para onde as ruínas se estendiam ao longo da margem do lago.
            - Continue detectando, então, e nós seguiremos para onde você apontou. – ordenou Jim, satisfeito.
            O grupo seguiu na direção indicada, agora mais atentos que antes. Mas não percebiam qualquer mudança nas ruínas, apesar de Azmuth dizer que os traços de magia se intensificavam suavemente à medida que eles avançavam. Apesar de atentos e experientes, nenhum dos aventureiros percebeu, a princípio, que já estavam sendo observados.
            - Esperem um pouco. – falou Jimhold após um bom tempo, puxando lentamente as espadas da bainha e olhando ao redor – Pode não ser nada, mas me sinto desconfortável, como se alguém estivesse nos seguindo. Liana e Lael, vêem alguma coisa?
            - Nada. – respondeu o ladino, depois de olhar em volta.
            - Não vejo nada. – murmurou a ranger – Mas ouço. Você tem razão, tem alguém nos observando. E não é só um.
            - Podem sair, quem quer que sejam vocês! – gritou o guerreiro, optando por uma abordagem direta – E tratem de explicar por que diabos estão nos seguindo!
            A essas palavras seguiu-se um leve ruído, como se os perseguidores tivessem se surpreendidos. Logo em seguida, um virote de besta voou de trás de um pilar em direção ao pescoço de Azmuth. Por sorte, Jim vira o brilho da ponta metálica do virote antes dele ser disparado, e conseguiu puxar o braço do mago, fazendo o projétil passar no vazio. Uma fração de segundo depois, outro virote errou Lael por um centímetro, vindo da direção oposta. Conduzido por Jim, o grupo se abrigou rapidamente entre dois enormes blocos de rocha cinzenta, sob uma chuva de projéteis.
            Vendo a linha de tiro obstruída e seus inimigos acuados, três atacantes vieram correndo em direção ao grupo, brandindo facões longos de pescador. Não passavam de rapazes magricelos; vestiam calças dobradas até o joelho, camisas largas e remendadas de algodão, sandálias abertas de couro e bandanas contendo os cabelos compridos e ondulados. Eram todos queimados de sol e lutavam com uma ferocidade infantil.
            O primeiro tombou com um virote atirado por Liana atravessado em sua coxa. Caiu de cara na terra úmida, agarrando a perna e gritando de dor. O segundo continuou correndo e alcançou os aventureiros, mas foi rapidamente desarmado, imobilizado e atirado ao chão por Jimhold. Vendo isso, o terceiro se apavorou, deu meia volta e saiu correndo.
            Antes que os demais atacantes pudessem fugir, Jim ergueu pelo braço o que havia capturado e gritou, em seu tom mais intimidante:
            - Parem! Se não querem que esses dois morram, vão largar as armas e se aproximar lentamente. Queremos algumas repostas.
            Os quatro rapazes se aproximaram, apavorados com a situação em que haviam se metido. Apenas um deles, provavelmente o mais velho, tentou fazer papel de durão, e ficou encarando Jim.
            - Por que nos atacaram? – questionou Jim.
            - Por que invadiram nossas terras? – o rapaz mais velho perguntou, sem se intimidar.
            - Esse bando de ruínas não pertence a vocês.
            - Apesar de não estar mais sendo usado, este lugar foi há muito tempo um acampamento do meu povo. – apesar de nômades, os gípsio não vagam aleatóriamente, mantém-se sempre dentro de certos percursos, e estabelecem acampamentos quase sempre nos mesmos lugares.
            - Então nos leve até onde seu povo acampa agora, gípsio.
            - Jamais! – exclamou o rapaz - Erebiano sujo!
            - Não está em posição de discutir. – disse Jim, indicando o rapaz capturado e o que ainda tinha um virote cravado na coxa.

Dia dois – Tarde – Acampamento gípsio

            Os aventureiros seguiram a pé seus guias involuntários, acompanhando a margem do lago na direção norte. Após pouco mais de duas horas de caminhada, avistaram um pequeno amontoado de carroças cobertas, tendas e cavalos. Mais de três dúzias de pessoas de cabelos escuros e ondulados pararam seus afazeres para observar os rapazes e os aventureiros que chegavam.
            - Fabríty, que está acontecendo?! – gritou um homem alto, barbudo e pouco musculoso, parando de arrancar as tripas de um peixe.
            - Me desculpa, meu pai! – gritou de volta o rapaz mais velho – Encontramos esses erebianos vagando pelas velhas ruínas, e eles nos forçaram a trazê-los até aqui.
            Assim que essas palavras foram proferidas, o clima do ambiente pareceu ficar pesado como chumbo. Cada homem adulto no local (e algumas das mulheres e crianças) pegou um facão ou besta e ficou encarando os aventureiros, franzindo a testa de raiva. Os rapazes correram em direção ao resto de seu povo. Lael resolveu utilizar-se de seu magnetismo social para controlar a situação.
            - Eu peço calma, senhores e senhoras. – começou o bardo - Não possuímos intenções violentas, de forma alguma.
            - O que querem aqui, então? – questionou o pai de Fabríty, apontando sua faca suja de tripas de peixe – Não gostamos de pessoas que invadem nosso acampamento, e muito menos das que ameaçam nossos filhos.
            - Viemos em uma missão nobre! – continuou Lael – Buscamos apenas enriquecer nossas mentes, bebendo dos conhecimentos maravilhosos de seu povo.    
            - Perderam seu tempo. – respondeu o homem, que se chamava Tarkyn – Não acolhemos gente do seu povo, muito menos revelamos nossos segredos. Vocês nem deveriam saber da existência de nosso acampamento.
            - Imploro que reconsidere e abra uma exceção para nós, nobre senhor. – o bardo ainda não se dera por vencido – Não desejamos conhecer seus segredos, apenas ter respondidas algumas dúvidas... inquietantes.
            - Da última vez que nosso povo abriu uma exceção e acolheu um erebiano - dessa vez quem respondeu foi uma idosa envolta em panos e chales – ele nos traiu, nos abandonou e usou o que aprendeu de nós para ganho próprio! Seu povo não é confiável!
            - Saiam logo do nosso acampamento! – gritou Tarkyn. Alguns dos gípsios apontavam bestas para os aventureiros.
            - O que acham? – murmurou Jim, de forma que somente seu grupo ouviu – Acho que podemos dar uma surra em todos eles, se quisermos.
            - Esqueça. – murmurou Azmuth de volta – Já descobri tudo o que precisava aqui. Vamos voltar.

Dia dois – Noite – Taverna e Estalagem Maçã Dourada

            - Quer dizer que você conseguiu detectar traços de magia no acampamento gípsio que batem com a praga do lago? – perguntou Lael.
            - Sim. – respondeu Azmuth, baixando o cachimbo – Eram fracos, mas tenho quase certeza.
            - Mas isso significa que a culpa é deles, no final das contas. – concluiu Jim.
            - Talvez não. – respondeu o mago – O que acha da história de que alguém que eles acolheram os abandonou? Talvez este seja nosso culpado.
            - De qualquer forma, teremos que voltar ao acampamento e perguntar a eles quem é essa pessoa. – comentou Liana – E não acho que seremos bem recebidos.
            Azmuth ficou pensativo, observando distraidamente Lael comer mais uma cesta das exóticas maçãs gigantes da cidade. De repente, ergueu-se da cadeira com um pulo, derrubando várias canecas de cerveja.
            - É isso! – exclamou, depois baixou a voz ao ver que estava atraindo muita atenção – Como pude ser tão cego?
            Agarrou a cesta e subiu rapidamente para seu quarto. Antes, porém, virou-se para Lael e falou.
            - Descubra tudo o que puder sobre essas maçãs gigantes. De onde vêm, quem as cultiva e desde quando.
            Ninguém prestou atenção em um homem de capuz e roupas escuras sentado em uma mesa próxima. O estranho coçava uma grande cicatriz no queixo, enquanto ouvia tudo o que era dito pelo grupo.

            Algumas horas depois, Azmuth chamou os cinco aventureiros para seu laboratório improvisado. Primeiramente, o mago pediu para que Lael contasse o que havia descoberto.
            - Bom, eu fiquei surpreso em saber, mas nem a cidade, nem as maçãs são muito antigas. – começou o bardo – E todos os pomares pertencem a um mesmo homem.
            - Isso eu já havia pesquisado. – disse Azmuth, acenando impaciente com a mão – O que você descobriu sobre este homem?
            - Bem, a história dele é interessante. – respondeu Lael – Seus pais faziam parte da população que fundou esta cidade há cerca de sessenta anos atrás, e morreram quando ele era criança. Ele acabou sendo criado em outro lugar, ninguém parece saber onde, mas voltou para cá logo que ficou adulto. Conseguiu reaver as antigas terras de seus pais e começou a plantar suas maçãs gigantes. Logo elas se tornaram famosas, a vila cresceu como uma bela cidade e foi renomeada em sua homenagem.
            - Bem, aí está. – concluiu o mago, indicando Lael com a cabeça.
            - Você está sugerindo o que eu acho que está sugerindo? – perguntou Jim
            - Exatamente. – confirmou Azmuth – E as amostras de maçã confirmam. Beroq Libaroq, o rei das maçãs, vem contaminando o lago há mais de quatro décadas. Já tenho as provas das quais preciso, amanhã apresentaremos aos magos do Conselho da cidade e receberemos nossa recompensa.

Dia três – Manhã – Estalagem
           
            Jimhold acordou cedo e faminto, e levantou-se para procurar algo para comer. Ao passar pelo corredor, viu a porta do quarto de Azmuth entreaberta e decidiu entrar. O mago estava sentado em sua cama, pensativo, com um pedaço de papel na mão.
            - Por que você está com essa cara? – perguntou o guerreiro – O que é isso na sua mão?
            Sem falar nada, Azmuth entregou o pedaço de papel para ele ler. Era um bilhete, e estava escrito, em uma caligrafia fina: Estou muito grata pela solução da contaminação. Fique tranquilo, gastarei muito bem o dinheiro da recompensa. Sua amiga, Sylvia.  
            - Aquele capanga dela deve ter nos espionado e roubado as provas durante a noite – disse o mago.
            - Mas o que?! – Jim estava furioso – Vamos logo atrás dela recuperar as provas! Quem resolveu isso fomos nós!
            - Não, fui eu. – respondeu Azmuth – Mas não tem mais jeito, ela já pegou a recompensa e foi embora.
            - Podemos tentar alcançá-la. – sugeriu o guerreiro – Você deve estar furioso por ela ter roubado todo o crédito...
            - Eu deveria estar? – perguntou o mago, com um sorrisinho.
            - Eu estaria. Você mesmo acabou de dizer, quem resolveu isso foi você!
            - Exatamente. – concluiu Azmuth – Não importa se ela receba uma recompensa idiota ou os agradecimentos de uma cidadezinha estúpida e seus magos incompetentes. Eu sou o melhor, e é isso o que importa. Estou satisfeito.

Dia três – Tarde – Taverna

            O estabelecimento estava quase vazio, mas os cinco aventureiros estavam reunidos em uma mesa. Dalariok e Garrukk já deveriam ter retornado, por isso os demais discutiam se deviam esperar ou ir à sua procura.
            De repente, a porta da taverna se abriu, e dois homens cruzaram a soleira. Estavam completamente sujos, desalinhados e feridos, mas cada um trazia um enorme sorriso cansado no rosto. Eram o arqueiro e o bárbaro. Atraindo atenção de todos no local, andaram até a mesa dos aventureiros e se sentaram.
            A agitação se fez; comida e bebida foram pedidas, Draenis, desesperada, começou a se oferecer para curá-los e todos queriam saber das novidades.
            - Encontraram um caminho para nós? – perguntou Jim.
            - Mas é claro! – respondeu Dalariok, sorrindo – Encontramos o caminho mais rápido para o leste.
            - E é uma estrada movimentada? – questionou o líder.
            - Provavelmente não. É uma velha estrada imperial fora de uso, que sobe e desce por entre as montanhas.
            - E é segura?
            - Nem um pouco! – respondeu o arqueiro, rindo – Orcs, bandidos, bárbaros, animais selvagens, monstros... Se dermos sorte, talvez haja até um dragão! Para não falar nas lendas de tesouros mágicos e maravilhosos.
            - Senhores, senhoras, meus companheiros... – falou Jimhold, sorrindo de lado e erguendo uma grande caneca de madeira – Parece que já encontramos nosso caminho!

FIM.
(...)

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