Dia zero – Anoitecer – Trilha das montanhas
A neve fina começou a cair. Seguindo sua viagem para o Leste visando explorar todo o continente de Ereb, os aventureiros precisavam passar pela cordilheira que separa o reino de Lusitens de seu vizinho. Ao invés de contornar a comprida cadeia de montanhas que se estende para o Norte e para o Sul, Jimhold decidiu guiar o grupo por uma antiga estrada abandonada que supostamente cruzava pelo meio da cordilheira.
A estrada chamada Estrada dos Gritos era lendária, mas poucas pessoas conheciam sua localização ou mesmo sabiam se ela era real ou não. Segundo as histórias, o caminho havia sido erguido pelo Império Antigo e fora uma via grande e movimentada, mas tudo o que restava era uma trilha semidemolida e cheia de perigos. Dalariok disse que conhecia a entrada da estrada, e conseguiu encontrá-la na ocasião em que saiu sozinho com Garrukk.
Os aventureiros já estavam subindo através dessa trilha há muitos dias. Devido às dificuldades do terreno montanhoso, foram forçados a deixar os cavalos e a carroça para trás. Carregavam os suprimentos e equipamentos nas costas, sofrendo com a subida íngreme e as eventuais escaladas desafiadoras. Era uma viagem desgastante.
A neve fina começou a cair. Como que para acompanhar, o vento gélido se intensificou, simulando gritos e gemidos terríveis quando soprava por entre as fendas na rocha. O grupo subia por um trecho inclinado de apenas cerca de dois metros de largura. À direita, o paredão rochoso; à esquerda, um precipício com uma queda de quilômetros em meio à névoa.
- Não é possível que esteja tão frio! – reclamou Lael, tremendo dentro de suas roupas de pele. Apenas Garrukk não estava devidamente agasalhado, mas não parecia se incomodar – Estamos no meio do verão!
- Estamos no alto, muito alto. – respondeu Jim – E essas montanhas são conhecidas por emanar um frio incomum. Agradeça por estarmos no verão; se fosse inverno, a camada de neve teria mais de um metro de profundidade e seria impossível prosseguir.
- Meu povo desceu destas montanhas, há séculos atrás. – comentou o bárbaro, admirando a paisagem em volta – E ainda existem aqueles que vivem aqui até hoje.
- Vamos esperar que nenhum deles queira arrancar nossas cabeças. – respondeu Azmuth, mal humorado – Não seria nada agradável...
O grupo prosseguiu apesar do frio, mas a nevasca piorou e a visibilidade foi se tornando cada vez mais prejudicada. Depois de um tempo, os pequenos flocos de neve soprados diretamente contra os rostos dos aventureiros impediam que eles enxergassem mais do que meio metro à frente.
- Assim não é possível, temos que parar. – reclamou Draenis, esfregando suas orelhas a ponto de congelar. O grupo tinha que se comunicar ao gritos, para ouvirem uns aos outros – E não faria mal algum o Azmuth conjurar algum fogo para nos aquecer um pouco.
- Não é fácil conjurar chamas em um ambiente como esse, sabia? – retrucou o mago, ainda mais mal humorado.
- Não adianta parar em um lugar não protegido do vento. – respondeu Jim – O melhor que podemos fazer agora é seguir em frente.
Mal terminou de falar isso, o líder, que ia à frente, chocou-se contra algo e caiu de costas no chão. Mesmo Liana, a de melhor visão no grupo, teve dificuldades em distinguir em meio a toda aquela neve a forma branca e peluda contra a qual o guerreiro se chocara.
- O que diabos é isso?! – gritou Jim enquanto se levantava.
A criatura contra a qual ele bateu também se ergueu, lentamente. Alcançou três metros de altura à medida que se esticava e se virava em direção aos aventureiros. Tinha forma humanóide, com postura ereta e um rosto entre o de humano e macaco. Além de alto, era forte, parrudo e estava coberto por uma grossa pelagem, tão branca quanto a neve. Parecia confuso, como se acabasse de despertar, e soltou um poderoso urro de sua bocarra ampla com presas compridas.
- Recuem! – ordenou o líder.
O grupo obedeceu, com dificuldade devido à neve e ao terreno irregular. A criatura humanóide ficou encarando-os, como se os estudasse. De repente, Garrukk correu à frente com um grito de batalha e golpeou com seu grande machado de duas mãos. Apesar da lâmina do machado ter atingido a criatura em cheio nas costelas, ela mal se curvou e nenhum sangue manchou seu pelo branco.
- Idiota! – gritou Jim, enquanto a criatura arremessava o bárbaro para trás, rugindo.
- Devíamos ter tentado evitar este combate desnecessário. – comentou Liana – Estamos em grande desvantagem.
- Ah, você acha? – perguntou Azmuth, irônico – Como foi que notou?
O humanóide peludo golpeou o chão com suas poderosas mãos, arremessando uma pilha de neve contra os aventureiros para atrapalhar sua visão. Sem perder um segundo sequer, acertou Lael, lançando-o à beira do precipício. Dalariok começou a atirar com seu arco, mas o vento forte desviava a maioria dos projéteis. A criatura mantinha o rosto coberto pelos braços, e as flechas que acertavam seu corpo não atravessavam a pele grossa.
Garrukk avançou mais uma vez, brandindo seu machado. O humanóide peludo agarrou-o pelo pescoço com as duas mãos e começou a enforcá-lo, mas Jim se adiantou e pôs-se a golpear seus braços. O único efeito dos golpes foi fazer com que a criatura largasse o bárbaro e tentasse desferir um poderoso golpe lateral contra o guerreiro. Jim se jogou no chão, escapando por pouco, e o golpe atingiu o paredão de rocha, causando um forte tremor e abrindo um buraco. Liana aproximou-se cautelosamente para examiná-lo.
- Por aqui! Há espaço o suficiente para todos nós! – gritou ela, ao mesmo tempo em que Lael era arremessado por um golpe inimigo.
Fechando os olhos, Azmuth concentrou suas energias e acenou com as mãos e seu cetro, ao mesmo tempo em gritava as palavras no Idioma Místico a plenos pulmões. Uma poderosa bola de fogo explodiu a centímetros da criatura, fazendo-a recuar alguns metros atordoada e chamuscando os cabelos de Jim e Garrukk. Mas o frio e a nevasca fizeram com que a magia fosse mais fraca do que o normal, e a criatura não ficaria atordoada por muito tempo.
Aproveitando-se dos segundos que tinham, os aventureiros dispararam para dentro do buraco indicado por Liana. Garrukk precisou ser arrastado à força (queria continuar lutando, apesar de tudo), mas por fim todos se alojaram. O buraco era pequeno demais para a criatura entrar, e abria-se para uma rachadura natural da rocha, que lembrava um túnel em direção ao interior da montanha. Impedidos de sair ao menos até a nevasca passar e o humanóide peludo ir embora, o grupo decidiu escutar sua curiosidade e explorar o túnel mais a fundo.
A descida seguiu por mais de meia hora e a fenda foi se tornando cada vez mais ampla, de modo que a partir de certo ponto os aventureiros puderam andar completamente de pé.
O túnel úmido e escorregadio terminava em uma abertura ampla, preenchida por uma escuridão inescrutável. Os dois pontos de luz mágica conjurados por Azmuth e Draenis não eram o suficiente para iluminar a câmara rochosa; e apenas os sons de água gotejante e do revoar de morcegos eram percebíveis pelos sentidos. Os aventureiros avançaram poucos metros além da abertura, pois não queriam se perder do caminho pelo qual haviam descido.
- Eu acho que já chega de exploração de cavernas por hoje, gente. – Draenis quebrou o silêncio, a voz ligeiramente trêmula – Deveríamos voltar à estrada e continuar nossa viagem.
- Ora, onde está seu senso de aventura? – perguntou Dalariok, sorrindo.
Apesar das palavras do arqueiro, todo o grupo sentia o clima pesado que se derramava sobre o ambiente. Sem que nenhuma ordem precisasse ser dada, todos haviam sacado suas armas e olhavam a toda a volta, como se esperassem alguma coisa. A entrada naquela câmara fora como atravessar um portal.
- Não estou gostando nada deste lugar. – concluiu Jim, cauteloso – Nossa clériga tem razão, chega de exploração de cavernas por hoje.
Assim que estas palavras foram pronunciadas, antes que qualquer um pudesse fazer qualquer movimento, uma visão atraiu toda a atenção. Uma luz débil que lembrava o brilho de dois olhos vermelhos surgiu em meio à escuridão, causando em todos os aventureiros um medo primal que os deixou em choque. Um momento depois, uma enorme explosão vinda do túnel de entrada arremessou o grupo para a frente. O abalo da explosão mesclou-se com os gritos supersônicos de um milhão de morcegos apavorados, e todos os aventureiros apagaram.
Dia indefinível – Hora indefinível – Lugar indefinível
Jimhold, o guerreiro, levantou-se com um salto, puxando suas espadas da cintura. Ao mesmo tempo em que olhava ao redor em posição de defesa, sacudia a cabeça para um lado e para o outro, tentando clarear sua visão.
O primeiro fato que notou era que não estava mais dentro de uma caverna. Uma patética luminosidade cinzenta filtrava-se através de uma espessa cortina de nuvens negras no céu; um espaço anormalmente plano de solo pedregoso e congelado estendia-se em todas as direções, pontilhado de rochas verticais monolíticas plantadas a intervalos regulares.
O segundo fato que notou - apenas alguns segundos depois - foi que estava sozinho. Completamente sozinho. Procurou ao redor por qualquer sinal de seus companheiros, mas não encontrou qualquer marca, pegada ou objeto deixado para trás. Não havia também qualquer sinal de como ele próprio havia chegado ali.
Jim guardou suas espadas e sentou-se no chão, procurando não perder a calma. Havia algo de irreal em todo aquele ambiente muito homogêneo e organizado, como se houvesse sido projetado por alguém. Sem qualquer pista do que fazer, o guerreiro tornou a se levantar e começou a vagar aleatoriamente.
Lentamente, à medida que seus olhos acostumavam-se à baixa luminosidade, reparou em um ponto de luz azulada a uma enorme distância. Sem pensar duas vezes, rumou nesta direção, certo de que seus companheiros, onde quer que estivessem, fariam o mesmo.
Dia indefinível – Hora indefinível – Lugar indefinível
Lael abriu os olhos e pôs-se de pé lentamente, ainda tonto. Assim que começou a olhar desesperadamente em volta, avistou duas pessoas caídas no chão, a uma pequena distância. Correu em sua direção; eram Draenis e Dalariok.
O bardo despertou primeiro a clériga.
- O que aconteceu? – perguntou ela logo que acordou, ainda confusa – Onde estamos? Cadê os outros?
- Não sei. – respondeu Lael, nervoso – A última coisa que me lembro foi de avistar dois olhos vermelhos e brilhantes, e depois ouvir um estrondo. Acabei de acordar.
- Onde estão os outros? –Draenis tornou a perguntar, mas o bardo não sabia responder.
Dalariok despertou com o som da conversa. Os outros dois perceberam que ele não parava de esfregar os olhos com uma das mãos, enquanto tateava freneticamente com a a outra o chão e o ar ao redor.
- Dalariok, você está bem? – perguntou a clériga
- Draenis, é você? – perguntou ele de volta, ainda tateando.
- É claro que sou eu. Não está me vendo?
- Não.
- Como assim? – a clériga estava surpresa.
- Não estou enxergando nada. – o arqueiro tinha um tom levemente apavorado na voz – O que diabos aconteceu?
- Estamos em um lugar estranho e quieto. – respondeu Lael – E não há nem sinal do resto do grupo.
- Por que não estou conseguindo ver nada? – perguntou Dalariok – Minha visão era ótima. Não estou gostando nada disso.
- Eu vou tentar curar seus olhos. – respondeu Draenis.
A clériga aproximou suas mãos do rosto do arqueiro e começou a cantar sua prece a Kunst. Mas nada aconteceu. Nenhum brilho ou calor surgiu em suas mãos, e ela não sentiu nenhuma intervenção divina. Já começando a se desesperar, tentou curar algum dos cortes e ferimentos que Dalariok havia conseguido durante a explosão e queda, mas novamente nada aconteceu. Draenis caiu de joelhos, chorando.
- O que aconteceu? – perguntou Lael – Por que não consegue curá-lo?
- Não... sinto... a presença... dela... – a clériga conseguiu murmurar por entre o choro – Não sinto...
- Levanta, para de chorar. – o bardo tentou levantá-la – Temos que fazer alguma coisa. Você precisa nos dizer para onde ir.
Draenis continuou ajoelhada no chão, tremendo e chorando.
- Ela não está em condições de liderar, carinha. – comentou Dalariok, aproximando-se da clériga e abraçando-lhe os ombros – E muito menos eu. Você terá que nos tirar dessa.
- Eu?! – Lael estava apavorado com a responsabilidade – De jeito nenhum, não sou um líder. Você é muito melhor do que eu, você deveria nos liderar.
O arqueiro soltou uma gargalhada amargurada.
- Caso não tenha reparado, eu estou cego. – falou, arrasado – E um arqueiro é completamente INÚTIL cego. Ela está em choque, e eu não consigo nem andar sem tropeçar em alguma coisa. Quem terá que nos salvar é você.
Dia indefinível – Hora indefinível – Lugar indefinível
Depois de algum tempo solitário de caminhada, Azmuth avistou o que estava procurando: alguns de seus companheiros. Liana já havia despertado e estava sentada, enquanto Garrukk ainda se encontrava desacordado. Quando se aproximou, o mago percebeu que a ranger tinha o olhar fixo no chão e os olhos marejados de lágrimas. Era a primeira vez que qualquer um via Liana perder a calma e entrar em desespero.
- Você está bem, menina selvagem? – perguntou Azmuth, cutucando-a com seu cetro – Levanta logo daí e acorda esse brutamontes; tem uma forte luz azulada naquela direção, e deveríamos estar indo para lá.
A ranger ignorou-o completamente.
- O que foi?! – o mago estava perdendo a paciência – Não me ouviu?!
- Morto... Tudo morto... – respondeu Liana, ainda mirando o chão.
- O que está morto? – agora, Azmuth estava confuso – Do que você está falando?
- As árvores. O solo. Tudo. Pela primeira vez na vida, não sinto a presença de Danna, da Mãe Terra.
- Tem alguém, ou alguma coisa, brincando com nossa cabeça, só isso. – respondeu o mago – Vamos encontrar os outros e dar o fora daqui.
- Muito esperto, senhor mago. – uma voz rouca e esganiçada foi ouvida.
Azmuth se virou lentamente. A voz pertencia a uma figura alta, magra e completamente coberta por uma capa negra. O rosto estava completamente oculto pelo capuz, mas dois brilhantes olhos vermelhos eram facilmente localizáveis.
- Então, você deve ser quem nos colocou nesta situação. – com toda a sua arrogância, o mago não parecia intimidado – Não vai responder? Então talvez eu deva simplesmente forçá-lo a nos tirar daqui.
A figura encapuzada novamente não respondeu. Sem paciência, Azmuth ergueu seu cetro e disparou uma série de projéteis de fogo, que voaram diretamente contra seu inimigo. Mas este apenas ergueu uma mão magra, comprida e ensangüentada, e absorveu as chamas. O mago, em seguida, conjurou uma poderosa bola de fogo. Mas a explosão mal serviu para sacudir a capa do inimigo. Azmuth começou a perder a confiança.
- Já chega de brincar com seus poderes tolos, mago. – a voz rouca e esganiçada tornou a falar – Verei como você se sente sem eles.
Com essas palavras, o inimigo encapuzado ergueu sua mão em garra contra Azmuth. O mago sentiu imediatamente uma poderosa dor no peito, como se algo estivesse sendo drenado de si. A dor se estendeu por alguns segundos, durante os quais Azmuth ficou se contorcendo no chão.
Assim que a dor passou, o mago pôs-se novamente de pé e tentou continuar atacando. Mas por mais que ele tentasse, não conseguia mais conjurar nenhuma magia.
- O que é isso?! – Azmuth estava pela primeira vez desesperado – O que você fez comigo?
- Apenas tomei seu pequeno brinquedinho. Como se sente estando ainda mais ridículo e inútil que antes? Vocês humanos são realmente patéticos...
A figura encapuzada virou-se e desvaneceu lentamente, deixando para trás um mago humilhado e desesperado.
Acordado por Liana e Azmuth, Garrukk ergueu-se com dificuldade. Sentia-se fraco, frágil, péssimo. Antes tão vigoroso, o bárbaro agora tinha as pernas trêmulas e dificuldades apenas para se manter de pé.
- O que aconteceu? – perguntou, obviamente confuso – Onde estamos?
- Também não sabemos. – respondeu Liana, sentindo-se ferida apenas de olhar a paisagem morta ao redor – Mas estamos seguindo na direção daquela luz, na esperança de encontrar os outros.
Garrukk tentou pegar seu machado de duas mãos, mas sequer conseguiu erguê-lo do chão. Estava fraco como uma criança. Continuou tentando sucessivamente, mas só o que conseguiu foi cansar-se e cair de joelhos.
- O que aconteceu com minha força? – perguntou o bárbaro – Eu conseguia levantar este machado com apenas uma das mãos.
- Azmuth não consegue realizar magias, e eu perdi todo o contado com Danna. – a ranger tremeu ao dizer isso. O mago ainda estava abalado demais para falar – Por enquanto, vamos apenas continuar em frente.
Jimhold
O guerreiro já estava andando por muito tempo, mas não tinha a menor idéia de quanto. Na verdade, nem mesmo tinha certeza de que existia algo como o tempo naquele lugar. Sabia apenas que deveria continuar andando, encontrar seus companheiros e tirá-los dali. Era tudo.
Em certo momento, notou uma figura encapuzada e vestida de negro surgir de trás de um monólito. Reconheceu sem dificuldade os mesmos olhos vermelhos que havia vislumbrado logo antes da explosão. Puxou imediatamente as espadas.
- Quem é você e que diabos de lugar é esse?! – perguntou.
- Sente-se solitário, pequeno guerreiro? – questionou a figura, com sua voz rouca e esganiçada.
- Responda logo minha pergunta! – exclamou Jim – Quem quer que você seja, não tenho tempo para seus joguinhos.
- Eu me pergunto como seus companheiros estarão se sentindo sem seu pequeno projeto de líder...
- Já vi que não vai adiantar nada tentar ser educado! – gritou o guerreiro, saltando para cima do inimigo e brandindo as espadas.
A figura encapuzada desviou dos golpes com uma velocidade impossível; parecia apenas ter desaparecido por um momento e reaparecido atrás do guerreiro.
- Um líder deveria sempre proteger e zelar por seus subordinados, não é mesmo? – zombou o ser de olhos vermelhos – Mas você falhou. Acho que isso faz de você um péssimo líder...
Com estas últimas palavras, o inimigo desvaneceu lentamente, deixando escapar uma gargalhada fria e assustadora.
Lael, Draenis e Dalariok
O bardo praticamente puxava os outros dois na direção da luz azulada. Draenis ainda não parara de chorar por perder contato com sua deusa, e Dalariok se tornara extremamente intransigente após perder sua visão. Ficava fazendo piadas maldosas sobre seu problema e repetindo o quanto havia se tornado inútil, uma forma de tentar se proteger da verdade. Lael estava emocionalmente exausto; seu maior pesadelo era liderar e ter pessoas dependendo dele.
A figura encapuzada surgiu desta vez na frente destes três, e o bardo logo reconheceu seus brilhantes olhos vermelhos. Deteve-se, apenas aguardando. Não tinha ânimo para vestir sua máscara de fingimento e tentar qualquer abordagem diplomática.
- Já desistiram? – perguntou a criatura, fingindo desapontamento – Assim serão os primeiros a serem eliminados...
- Draenis, conjure suas bênçãos! – exclamou Lael, cansado, puxando duas adagas.
- Não posso... – a clériga caiu novamente de joelhos, chorando – Kunst me abandonou. Não posso fazer nada. Minha deusa me abandonou...
- Dalariok! – o bardo tentou apelar para o outro – Prepare seu arco!
- O que espera que eu faça?! – gritou o arqueiro de volta, sentando-se no chão – Não posso disparar sem enxergar meu alvo. Sou inútil!
- Alguém... por favor... – Lael caiu também de joelhos. Sua esperança havia ido embora.
- Isso... Sucumbam a todos os medos... – o vulto de olhos vermelhos aproximou-se dos três, deliciado – Sucumbam ao desespero...
Sua sombra cresceu, abarcando os aventureiros em uma escuridão gelada.
Liana, Azmuth e Garrukk
Os três aventureiros já caminhavam há algumas horas (embora fosse difícil saber ao certo em um lugar como aquele) e a luz não parecia sequer um centímetro mais próxima quando o vulto encapuzado retornou. Estava apenas parado no meio do caminho.
- Creio que seja o fim da linha para vocês... – sussurrou a voz rouca e esganiçada – Já estão suficientemente tragados por seus temores.
Sua sombra começou a crescer, alastrando-se pelo chão com a forma de uma centena de tentáculos em movimento. De baixo de seu manto surgiram dezenas de serpentes negras, que avançaram deslizando na direção dos aventureiros.
Liana tentou dar um salto atrás e puxar seus companheiros consigo, mas ela própria estava mais lenta e fraca. A energia vital de seu povo depende diretamente do contato com a natureza e a Mãe Terra, e o tempo passado em um lugar tão estéril a estava devastando; sua pele e cabelos estavam secos e sem brilho, seus músculos estavam cansados e seus olhos mal enxergavam o inimigo à sua frente.
Garrukk caiu de joelhos no chão. Um punhado de serpentes enrolou-se em seus braços e pernas, segurando-o firmemente nessa posição. A princípio ele tentou se mover ou se libertar, mas sua força descomunal havia desaparecido, e ele logo desistiu. Baixou a cabeça, observando os tentáculos de sombra que se aproximavam lentamente.
Azmuth passeava sua visão entre seu inimigo e cada um dos companheiros de grupo, apavorado. Não sabia o que fazer sem sua magia. Deixou cair o cetro, e permaneceu congelado no mesmo lugar.
Jimhold
A figura esguia coberta por um capuz negro tornou a aparecer. O guerreiro ignorou-a, continuou andando em direção à luz azulada, que parecia agora ligeiramente mais brilhante. A figura começou a deslizar ao seu lado, acompanhando-o.
- Ainda não desistiu de seus companheiros, pequeno guerreiro? – perguntou maliciosamente.
Jim não respondeu ou sequer olhou para o inimigo, apenas acelerou um pouco o passo.
- Por que tanta pressa? – perguntou o de olhos vermelhos – Está preocupado com seus amiguinhos? Deveria mesmo, eles não estão em uma situação muito agradável neste momento...
- Não estou preocupado com eles. – o guerreiro se limitou a responder, sem parar de caminhar.
- Não, é? – o inimigo parecia deliciado – Quer dizer que já desistiu de todos eles? Decidiu apenas escapar daqui sozinho e salvar sua própria pele?
- Não estou preocupado com eles – Jim explicou – porque sei que eles não precisam de mim para sair desta situação.
- Acha mesmo isso? – a figura encapuzada gargalhou – Pois para mim parece apenas que você está admitindo o péssimo líder que é.
- Eu costumava achar que tinha obrigação de salvar a todos. – refletiu o guerreiro. A luz azulada crescia gradativamente – E me culpava por não ser capaz. Mas um verdadeiro líder deve confiar em seus companheiros. Eu confio totalmente na capacidade de cada um do meu grupo. Quando sairmos daqui, vamos rir juntos de suas tentativas patéticas de nos confundir. O que quer que você seja.
- Veremos... – respondeu o inimigo enquanto desaparecia, mais raivoso que em qualquer momento anterior.
Lael, Draenis e Dalariok
O bardo estava envolto pelos tentáculos negros formados pela sombra de seu inimigo de olhos vermelhos. Sua consciência esvaziava-se rapidamente, deixando lugar apenas para dúvidas e escuridão.
“Por quê?! Por que eu?! Eles não podem depender de mim para ajudá-los, eu sou um fracasso! Não consigo ajudar nem a mim mesmo!”
“Pare com isso, seu ladino idiota!” - outra voz surgiu em sua cabeça, um pedaço oculto de sua personalidade. A voz parecia a sua própria, porém determinada como nunca fora ouvida antes - “Eles precisam de você, não precisam?”
“Mas como eu posso ajudá-los? Sou um inútil! Não consigo ajudar nem a mim mesmo...”
“O que te impede de tentar? Pare de se apoiar em seus amigos e comece você a apoiá-los quando eles precisam.”
“Não é assim tão simples.”
“Ninguém disse que seria fácil...”
Lael percebeu a luz azulada intensificar-se e invadir sua visão. Desvencilhou-se, com alguma dificuldade, dos tentáculos que o prendiam, e dirigiu-se para seus companheiros, também detidos.
- Levantem-se! – gritou – Draenis, pare de choradeira! Assim mesmo é que Kunst não te dará ouvidos! O que a deusa da música e das artes pensaria de alguém que se cala e chora quando algo de ruim acontece?
A clériga levantou-se, parando de chorar e fazendo esforço para se libertar das sombras. Sorriu brevemente para Lael, espalmou as mãos à sua frente e começou a cantar e dançar. Para a surpresa do encapuzado de olhos vermelhos, Draenis recuperou na mesma hora o contato com sua deusa, e suas mãos começaram a emitir um brilho claro e quente.
- Dalariok! – o bardo gritou novamente – Trate logo de se levantar e pegar seu arco!
- Não sei se você reparou, mas eu não vejo nada. – respondeu o arqueiro, apático – Não posso disparar flechas assim...
- Você ainda tem seus outros sentidos, idiota! – retrucou Lael – Isso não é desculpa para agir como um derrotado!
Dalariok desvencilhou-se facilmente dos tentáculos, encaixou uma flecha no arco e puxou a corda até o final.
- Não! – dessa vez foi a voz rouca e esganiçada que exclamou – Parem com isso! Retornem ao medo e ao desespero!
A criatura foi calada por uma sequência de flechas disparadas por Dalariok, todas emanando um brilho claro absorvido das mãos de Draenis.
A luminosidade azulada começou a crescer, inundando todo o ambiente. Os tentáculos de sombra desapareceram, e a figura encapuzada recolheu-se no chão, impotente. Gradativamente, a luz cresceu tanto que ofuscou a visão dos três aventureiros. Por fim, todos os três desmaiaram novamente.
Liana, Azmuth e Garrukk
Caída de costas no chão e presa por serpentes e tentáculos de sombra, a ranger por um momento quase desistiu. Sua visão foi se turvando até tornar-se apenas um enorme borrão escuro. “O pior” – ela pensou – “será morrer assim, sem nem ao menos sentir o abraço de Danna vindo buscar meu corpo e meu espírito.”
De repente, algo surgiu em meio ao redemoinho escuro de sua visão. Dois pontos fixos amarelos, que se tornaram dois olhos felinos e começaram a encará-la sem piscar. Pela primeira vez desde que chegara àquele estranho lugar, Liana sentiu a presença de vida, de vida selvagem. Esticou suas mãos para frente e sentiu algo peludo que não conseguia ver. Em seguida levou uma das mãos ao chão. Ao invés do chão morto e pedregoso, a ranger sentiu uma fina camada de neve, alojada sobre a vegetação rasteira ainda viva.
Com esforço, alcançou as espadas curtas, desvencilhou-se dos tentáculos de sombra e das serpentes e ergueu-se.
- Vamos, companheiros! – gritou para Azmuth e Garrukk, partindo para cima do inimigo de olhos vermelhos – Não desistam ainda! Vamos lutar com essa coisa e derrotá-la!
- Como posso lutar? – perguntou o mago, ainda parado de pé – Ele tomou de mim meus poderes mágicos.
- E tomou também minha força. – acrescentou o bárbaro, ainda de joelhos com os braços para trás.
- Azmuth, você desenvolveu seus poderes com anos de estudo e dedicação. – falou Liana, enquanto forçava o inimigo a desviar de seus golpes de espada – E você, Garrukk, conquistou sua força com muito treino e esforço. Essa coisa não pode realmente tirar isso de vocês, assim como não pôde me separar de verdade da Mãe Terra. Ele apenas nos fez acreditar que podia.
- NÃO! – exclamou o ser encapuzado – Vocês não podem fazer isso!
A luz azulada se intensificava cada vez mais rapidamente. Azmuth começou a pronunciar palavras no Idioma Arcano; suas mãos se incendiaram e seus mantos começaram a revoar com o vento circular criado pela conjuração. Garrukk tencionou seus poderosos músculos e sentiu todas as grandes serpentes que o prendiam romperem-se como se fossem papel.
- Isso tudo é apenas uma ilusão. – concluiu a ranger – E nós vamos quebrá-la!
O bárbaro saltou à frente e agarrou a figura encapuzada pela cintura com os dois braços, como um urso. Em seguida girou todo o seu corpo e arremessou para o alto, passando dos cinco metros de altura. Com uma última e sonora palavra de invocação, o mago fez o inimigo explodir em chamas e cair de volta no chão chamuscado e semimorto. A luz azulada cresceu até o ponto de ofuscar os aventureiros e fazê-los apagar.
Dia um – Amanhecer – Montanhas
Jimhold despertou. A primeira coisa que percebeu é que a luminosidade que estivera perseguindo o tempo todo era nada mais que o brilho do céu azul. Viu-se deitado em um chão nevado, próximo à saída de uma caverna. Seus companheiros de grupo estavam espalhados no chão á sua volta.
Cansado demais para se levantar, arrastou-se pelo chão, checando cada um de seus amigos. Estavam todos bem, apenas dormindo tranquilamente. Havia um grande felino de olhos amarelos e pelagem branca com manchas negras deitado sobre o peito de Liana, lambendo carinhosamente seu rosto.
Jim avistou vultos de pessoas caminhando à distância. Reunindo as poucas forças que lhe restavam, conseguiu pôr-se precariamente de pé e começou a acenar, gritando por ajuda. Depois de algum tempo acenando, foi percebido por uma das pessoas, que vieram imediatamente correndo em sua direção. Satisfeito, o líder pôde finalmente sucumbir à exaustão e desmaiar.
FIM.
(...) - Não é possível que esteja tão frio! – reclamou Lael, tremendo dentro de suas roupas de pele. Apenas Garrukk não estava devidamente agasalhado, mas não parecia se incomodar – Estamos no meio do verão!
- Estamos no alto, muito alto. – respondeu Jim – E essas montanhas são conhecidas por emanar um frio incomum. Agradeça por estarmos no verão; se fosse inverno, a camada de neve teria mais de um metro de profundidade e seria impossível prosseguir.
- Meu povo desceu destas montanhas, há séculos atrás. – comentou o bárbaro, admirando a paisagem em volta – E ainda existem aqueles que vivem aqui até hoje.
- Vamos esperar que nenhum deles queira arrancar nossas cabeças. – respondeu Azmuth, mal humorado – Não seria nada agradável...
O grupo prosseguiu apesar do frio, mas a nevasca piorou e a visibilidade foi se tornando cada vez mais prejudicada. Depois de um tempo, os pequenos flocos de neve soprados diretamente contra os rostos dos aventureiros impediam que eles enxergassem mais do que meio metro à frente.
- Assim não é possível, temos que parar. – reclamou Draenis, esfregando suas orelhas a ponto de congelar. O grupo tinha que se comunicar ao gritos, para ouvirem uns aos outros – E não faria mal algum o Azmuth conjurar algum fogo para nos aquecer um pouco.
- Não é fácil conjurar chamas em um ambiente como esse, sabia? – retrucou o mago, ainda mais mal humorado.
- Não adianta parar em um lugar não protegido do vento. – respondeu Jim – O melhor que podemos fazer agora é seguir em frente.
Mal terminou de falar isso, o líder, que ia à frente, chocou-se contra algo e caiu de costas no chão. Mesmo Liana, a de melhor visão no grupo, teve dificuldades em distinguir em meio a toda aquela neve a forma branca e peluda contra a qual o guerreiro se chocara.
- O que diabos é isso?! – gritou Jim enquanto se levantava.
A criatura contra a qual ele bateu também se ergueu, lentamente. Alcançou três metros de altura à medida que se esticava e se virava em direção aos aventureiros. Tinha forma humanóide, com postura ereta e um rosto entre o de humano e macaco. Além de alto, era forte, parrudo e estava coberto por uma grossa pelagem, tão branca quanto a neve. Parecia confuso, como se acabasse de despertar, e soltou um poderoso urro de sua bocarra ampla com presas compridas.
- Recuem! – ordenou o líder.
O grupo obedeceu, com dificuldade devido à neve e ao terreno irregular. A criatura humanóide ficou encarando-os, como se os estudasse. De repente, Garrukk correu à frente com um grito de batalha e golpeou com seu grande machado de duas mãos. Apesar da lâmina do machado ter atingido a criatura em cheio nas costelas, ela mal se curvou e nenhum sangue manchou seu pelo branco.
- Idiota! – gritou Jim, enquanto a criatura arremessava o bárbaro para trás, rugindo.
- Devíamos ter tentado evitar este combate desnecessário. – comentou Liana – Estamos em grande desvantagem.
- Ah, você acha? – perguntou Azmuth, irônico – Como foi que notou?
O humanóide peludo golpeou o chão com suas poderosas mãos, arremessando uma pilha de neve contra os aventureiros para atrapalhar sua visão. Sem perder um segundo sequer, acertou Lael, lançando-o à beira do precipício. Dalariok começou a atirar com seu arco, mas o vento forte desviava a maioria dos projéteis. A criatura mantinha o rosto coberto pelos braços, e as flechas que acertavam seu corpo não atravessavam a pele grossa.
Garrukk avançou mais uma vez, brandindo seu machado. O humanóide peludo agarrou-o pelo pescoço com as duas mãos e começou a enforcá-lo, mas Jim se adiantou e pôs-se a golpear seus braços. O único efeito dos golpes foi fazer com que a criatura largasse o bárbaro e tentasse desferir um poderoso golpe lateral contra o guerreiro. Jim se jogou no chão, escapando por pouco, e o golpe atingiu o paredão de rocha, causando um forte tremor e abrindo um buraco. Liana aproximou-se cautelosamente para examiná-lo.
- Por aqui! Há espaço o suficiente para todos nós! – gritou ela, ao mesmo tempo em que Lael era arremessado por um golpe inimigo.
Fechando os olhos, Azmuth concentrou suas energias e acenou com as mãos e seu cetro, ao mesmo tempo em gritava as palavras no Idioma Místico a plenos pulmões. Uma poderosa bola de fogo explodiu a centímetros da criatura, fazendo-a recuar alguns metros atordoada e chamuscando os cabelos de Jim e Garrukk. Mas o frio e a nevasca fizeram com que a magia fosse mais fraca do que o normal, e a criatura não ficaria atordoada por muito tempo.
Aproveitando-se dos segundos que tinham, os aventureiros dispararam para dentro do buraco indicado por Liana. Garrukk precisou ser arrastado à força (queria continuar lutando, apesar de tudo), mas por fim todos se alojaram. O buraco era pequeno demais para a criatura entrar, e abria-se para uma rachadura natural da rocha, que lembrava um túnel em direção ao interior da montanha. Impedidos de sair ao menos até a nevasca passar e o humanóide peludo ir embora, o grupo decidiu escutar sua curiosidade e explorar o túnel mais a fundo.
A descida seguiu por mais de meia hora e a fenda foi se tornando cada vez mais ampla, de modo que a partir de certo ponto os aventureiros puderam andar completamente de pé.
O túnel úmido e escorregadio terminava em uma abertura ampla, preenchida por uma escuridão inescrutável. Os dois pontos de luz mágica conjurados por Azmuth e Draenis não eram o suficiente para iluminar a câmara rochosa; e apenas os sons de água gotejante e do revoar de morcegos eram percebíveis pelos sentidos. Os aventureiros avançaram poucos metros além da abertura, pois não queriam se perder do caminho pelo qual haviam descido.
- Eu acho que já chega de exploração de cavernas por hoje, gente. – Draenis quebrou o silêncio, a voz ligeiramente trêmula – Deveríamos voltar à estrada e continuar nossa viagem.
- Ora, onde está seu senso de aventura? – perguntou Dalariok, sorrindo.
Apesar das palavras do arqueiro, todo o grupo sentia o clima pesado que se derramava sobre o ambiente. Sem que nenhuma ordem precisasse ser dada, todos haviam sacado suas armas e olhavam a toda a volta, como se esperassem alguma coisa. A entrada naquela câmara fora como atravessar um portal.
- Não estou gostando nada deste lugar. – concluiu Jim, cauteloso – Nossa clériga tem razão, chega de exploração de cavernas por hoje.
Assim que estas palavras foram pronunciadas, antes que qualquer um pudesse fazer qualquer movimento, uma visão atraiu toda a atenção. Uma luz débil que lembrava o brilho de dois olhos vermelhos surgiu em meio à escuridão, causando em todos os aventureiros um medo primal que os deixou em choque. Um momento depois, uma enorme explosão vinda do túnel de entrada arremessou o grupo para a frente. O abalo da explosão mesclou-se com os gritos supersônicos de um milhão de morcegos apavorados, e todos os aventureiros apagaram.
Dia indefinível – Hora indefinível – Lugar indefinível
Jimhold, o guerreiro, levantou-se com um salto, puxando suas espadas da cintura. Ao mesmo tempo em que olhava ao redor em posição de defesa, sacudia a cabeça para um lado e para o outro, tentando clarear sua visão.
O primeiro fato que notou era que não estava mais dentro de uma caverna. Uma patética luminosidade cinzenta filtrava-se através de uma espessa cortina de nuvens negras no céu; um espaço anormalmente plano de solo pedregoso e congelado estendia-se em todas as direções, pontilhado de rochas verticais monolíticas plantadas a intervalos regulares.
O segundo fato que notou - apenas alguns segundos depois - foi que estava sozinho. Completamente sozinho. Procurou ao redor por qualquer sinal de seus companheiros, mas não encontrou qualquer marca, pegada ou objeto deixado para trás. Não havia também qualquer sinal de como ele próprio havia chegado ali.
Jim guardou suas espadas e sentou-se no chão, procurando não perder a calma. Havia algo de irreal em todo aquele ambiente muito homogêneo e organizado, como se houvesse sido projetado por alguém. Sem qualquer pista do que fazer, o guerreiro tornou a se levantar e começou a vagar aleatoriamente.
Lentamente, à medida que seus olhos acostumavam-se à baixa luminosidade, reparou em um ponto de luz azulada a uma enorme distância. Sem pensar duas vezes, rumou nesta direção, certo de que seus companheiros, onde quer que estivessem, fariam o mesmo.
Dia indefinível – Hora indefinível – Lugar indefinível
Lael abriu os olhos e pôs-se de pé lentamente, ainda tonto. Assim que começou a olhar desesperadamente em volta, avistou duas pessoas caídas no chão, a uma pequena distância. Correu em sua direção; eram Draenis e Dalariok.
O bardo despertou primeiro a clériga.
- O que aconteceu? – perguntou ela logo que acordou, ainda confusa – Onde estamos? Cadê os outros?
- Não sei. – respondeu Lael, nervoso – A última coisa que me lembro foi de avistar dois olhos vermelhos e brilhantes, e depois ouvir um estrondo. Acabei de acordar.
- Onde estão os outros? –Draenis tornou a perguntar, mas o bardo não sabia responder.
Dalariok despertou com o som da conversa. Os outros dois perceberam que ele não parava de esfregar os olhos com uma das mãos, enquanto tateava freneticamente com a a outra o chão e o ar ao redor.
- Dalariok, você está bem? – perguntou a clériga
- Draenis, é você? – perguntou ele de volta, ainda tateando.
- É claro que sou eu. Não está me vendo?
- Não.
- Como assim? – a clériga estava surpresa.
- Não estou enxergando nada. – o arqueiro tinha um tom levemente apavorado na voz – O que diabos aconteceu?
- Estamos em um lugar estranho e quieto. – respondeu Lael – E não há nem sinal do resto do grupo.
- Por que não estou conseguindo ver nada? – perguntou Dalariok – Minha visão era ótima. Não estou gostando nada disso.
- Eu vou tentar curar seus olhos. – respondeu Draenis.
A clériga aproximou suas mãos do rosto do arqueiro e começou a cantar sua prece a Kunst. Mas nada aconteceu. Nenhum brilho ou calor surgiu em suas mãos, e ela não sentiu nenhuma intervenção divina. Já começando a se desesperar, tentou curar algum dos cortes e ferimentos que Dalariok havia conseguido durante a explosão e queda, mas novamente nada aconteceu. Draenis caiu de joelhos, chorando.
- O que aconteceu? – perguntou Lael – Por que não consegue curá-lo?
- Não... sinto... a presença... dela... – a clériga conseguiu murmurar por entre o choro – Não sinto...
- Levanta, para de chorar. – o bardo tentou levantá-la – Temos que fazer alguma coisa. Você precisa nos dizer para onde ir.
Draenis continuou ajoelhada no chão, tremendo e chorando.
- Ela não está em condições de liderar, carinha. – comentou Dalariok, aproximando-se da clériga e abraçando-lhe os ombros – E muito menos eu. Você terá que nos tirar dessa.
- Eu?! – Lael estava apavorado com a responsabilidade – De jeito nenhum, não sou um líder. Você é muito melhor do que eu, você deveria nos liderar.
O arqueiro soltou uma gargalhada amargurada.
- Caso não tenha reparado, eu estou cego. – falou, arrasado – E um arqueiro é completamente INÚTIL cego. Ela está em choque, e eu não consigo nem andar sem tropeçar em alguma coisa. Quem terá que nos salvar é você.
Dia indefinível – Hora indefinível – Lugar indefinível
Depois de algum tempo solitário de caminhada, Azmuth avistou o que estava procurando: alguns de seus companheiros. Liana já havia despertado e estava sentada, enquanto Garrukk ainda se encontrava desacordado. Quando se aproximou, o mago percebeu que a ranger tinha o olhar fixo no chão e os olhos marejados de lágrimas. Era a primeira vez que qualquer um via Liana perder a calma e entrar em desespero.
- Você está bem, menina selvagem? – perguntou Azmuth, cutucando-a com seu cetro – Levanta logo daí e acorda esse brutamontes; tem uma forte luz azulada naquela direção, e deveríamos estar indo para lá.
A ranger ignorou-o completamente.
- O que foi?! – o mago estava perdendo a paciência – Não me ouviu?!
- Morto... Tudo morto... – respondeu Liana, ainda mirando o chão.
- O que está morto? – agora, Azmuth estava confuso – Do que você está falando?
- As árvores. O solo. Tudo. Pela primeira vez na vida, não sinto a presença de Danna, da Mãe Terra.
- Tem alguém, ou alguma coisa, brincando com nossa cabeça, só isso. – respondeu o mago – Vamos encontrar os outros e dar o fora daqui.
- Muito esperto, senhor mago. – uma voz rouca e esganiçada foi ouvida.
Azmuth se virou lentamente. A voz pertencia a uma figura alta, magra e completamente coberta por uma capa negra. O rosto estava completamente oculto pelo capuz, mas dois brilhantes olhos vermelhos eram facilmente localizáveis.
- Então, você deve ser quem nos colocou nesta situação. – com toda a sua arrogância, o mago não parecia intimidado – Não vai responder? Então talvez eu deva simplesmente forçá-lo a nos tirar daqui.
A figura encapuzada novamente não respondeu. Sem paciência, Azmuth ergueu seu cetro e disparou uma série de projéteis de fogo, que voaram diretamente contra seu inimigo. Mas este apenas ergueu uma mão magra, comprida e ensangüentada, e absorveu as chamas. O mago, em seguida, conjurou uma poderosa bola de fogo. Mas a explosão mal serviu para sacudir a capa do inimigo. Azmuth começou a perder a confiança.
- Já chega de brincar com seus poderes tolos, mago. – a voz rouca e esganiçada tornou a falar – Verei como você se sente sem eles.
Com essas palavras, o inimigo encapuzado ergueu sua mão em garra contra Azmuth. O mago sentiu imediatamente uma poderosa dor no peito, como se algo estivesse sendo drenado de si. A dor se estendeu por alguns segundos, durante os quais Azmuth ficou se contorcendo no chão.
Assim que a dor passou, o mago pôs-se novamente de pé e tentou continuar atacando. Mas por mais que ele tentasse, não conseguia mais conjurar nenhuma magia.
- O que é isso?! – Azmuth estava pela primeira vez desesperado – O que você fez comigo?
- Apenas tomei seu pequeno brinquedinho. Como se sente estando ainda mais ridículo e inútil que antes? Vocês humanos são realmente patéticos...
A figura encapuzada virou-se e desvaneceu lentamente, deixando para trás um mago humilhado e desesperado.
Acordado por Liana e Azmuth, Garrukk ergueu-se com dificuldade. Sentia-se fraco, frágil, péssimo. Antes tão vigoroso, o bárbaro agora tinha as pernas trêmulas e dificuldades apenas para se manter de pé.
- O que aconteceu? – perguntou, obviamente confuso – Onde estamos?
- Também não sabemos. – respondeu Liana, sentindo-se ferida apenas de olhar a paisagem morta ao redor – Mas estamos seguindo na direção daquela luz, na esperança de encontrar os outros.
Garrukk tentou pegar seu machado de duas mãos, mas sequer conseguiu erguê-lo do chão. Estava fraco como uma criança. Continuou tentando sucessivamente, mas só o que conseguiu foi cansar-se e cair de joelhos.
- O que aconteceu com minha força? – perguntou o bárbaro – Eu conseguia levantar este machado com apenas uma das mãos.
- Azmuth não consegue realizar magias, e eu perdi todo o contado com Danna. – a ranger tremeu ao dizer isso. O mago ainda estava abalado demais para falar – Por enquanto, vamos apenas continuar em frente.
Jimhold
O guerreiro já estava andando por muito tempo, mas não tinha a menor idéia de quanto. Na verdade, nem mesmo tinha certeza de que existia algo como o tempo naquele lugar. Sabia apenas que deveria continuar andando, encontrar seus companheiros e tirá-los dali. Era tudo.
Em certo momento, notou uma figura encapuzada e vestida de negro surgir de trás de um monólito. Reconheceu sem dificuldade os mesmos olhos vermelhos que havia vislumbrado logo antes da explosão. Puxou imediatamente as espadas.
- Quem é você e que diabos de lugar é esse?! – perguntou.
- Sente-se solitário, pequeno guerreiro? – questionou a figura, com sua voz rouca e esganiçada.
- Responda logo minha pergunta! – exclamou Jim – Quem quer que você seja, não tenho tempo para seus joguinhos.
- Eu me pergunto como seus companheiros estarão se sentindo sem seu pequeno projeto de líder...
- Já vi que não vai adiantar nada tentar ser educado! – gritou o guerreiro, saltando para cima do inimigo e brandindo as espadas.
A figura encapuzada desviou dos golpes com uma velocidade impossível; parecia apenas ter desaparecido por um momento e reaparecido atrás do guerreiro.
- Um líder deveria sempre proteger e zelar por seus subordinados, não é mesmo? – zombou o ser de olhos vermelhos – Mas você falhou. Acho que isso faz de você um péssimo líder...
Com estas últimas palavras, o inimigo desvaneceu lentamente, deixando escapar uma gargalhada fria e assustadora.
Lael, Draenis e Dalariok
O bardo praticamente puxava os outros dois na direção da luz azulada. Draenis ainda não parara de chorar por perder contato com sua deusa, e Dalariok se tornara extremamente intransigente após perder sua visão. Ficava fazendo piadas maldosas sobre seu problema e repetindo o quanto havia se tornado inútil, uma forma de tentar se proteger da verdade. Lael estava emocionalmente exausto; seu maior pesadelo era liderar e ter pessoas dependendo dele.
A figura encapuzada surgiu desta vez na frente destes três, e o bardo logo reconheceu seus brilhantes olhos vermelhos. Deteve-se, apenas aguardando. Não tinha ânimo para vestir sua máscara de fingimento e tentar qualquer abordagem diplomática.
- Já desistiram? – perguntou a criatura, fingindo desapontamento – Assim serão os primeiros a serem eliminados...
- Draenis, conjure suas bênçãos! – exclamou Lael, cansado, puxando duas adagas.
- Não posso... – a clériga caiu novamente de joelhos, chorando – Kunst me abandonou. Não posso fazer nada. Minha deusa me abandonou...
- Dalariok! – o bardo tentou apelar para o outro – Prepare seu arco!
- O que espera que eu faça?! – gritou o arqueiro de volta, sentando-se no chão – Não posso disparar sem enxergar meu alvo. Sou inútil!
- Alguém... por favor... – Lael caiu também de joelhos. Sua esperança havia ido embora.
- Isso... Sucumbam a todos os medos... – o vulto de olhos vermelhos aproximou-se dos três, deliciado – Sucumbam ao desespero...
Sua sombra cresceu, abarcando os aventureiros em uma escuridão gelada.
Liana, Azmuth e Garrukk
Os três aventureiros já caminhavam há algumas horas (embora fosse difícil saber ao certo em um lugar como aquele) e a luz não parecia sequer um centímetro mais próxima quando o vulto encapuzado retornou. Estava apenas parado no meio do caminho.
- Creio que seja o fim da linha para vocês... – sussurrou a voz rouca e esganiçada – Já estão suficientemente tragados por seus temores.
Sua sombra começou a crescer, alastrando-se pelo chão com a forma de uma centena de tentáculos em movimento. De baixo de seu manto surgiram dezenas de serpentes negras, que avançaram deslizando na direção dos aventureiros.
Liana tentou dar um salto atrás e puxar seus companheiros consigo, mas ela própria estava mais lenta e fraca. A energia vital de seu povo depende diretamente do contato com a natureza e a Mãe Terra, e o tempo passado em um lugar tão estéril a estava devastando; sua pele e cabelos estavam secos e sem brilho, seus músculos estavam cansados e seus olhos mal enxergavam o inimigo à sua frente.
Garrukk caiu de joelhos no chão. Um punhado de serpentes enrolou-se em seus braços e pernas, segurando-o firmemente nessa posição. A princípio ele tentou se mover ou se libertar, mas sua força descomunal havia desaparecido, e ele logo desistiu. Baixou a cabeça, observando os tentáculos de sombra que se aproximavam lentamente.
Azmuth passeava sua visão entre seu inimigo e cada um dos companheiros de grupo, apavorado. Não sabia o que fazer sem sua magia. Deixou cair o cetro, e permaneceu congelado no mesmo lugar.
Jimhold
A figura esguia coberta por um capuz negro tornou a aparecer. O guerreiro ignorou-a, continuou andando em direção à luz azulada, que parecia agora ligeiramente mais brilhante. A figura começou a deslizar ao seu lado, acompanhando-o.
- Ainda não desistiu de seus companheiros, pequeno guerreiro? – perguntou maliciosamente.
Jim não respondeu ou sequer olhou para o inimigo, apenas acelerou um pouco o passo.
- Por que tanta pressa? – perguntou o de olhos vermelhos – Está preocupado com seus amiguinhos? Deveria mesmo, eles não estão em uma situação muito agradável neste momento...
- Não estou preocupado com eles. – o guerreiro se limitou a responder, sem parar de caminhar.
- Não, é? – o inimigo parecia deliciado – Quer dizer que já desistiu de todos eles? Decidiu apenas escapar daqui sozinho e salvar sua própria pele?
- Não estou preocupado com eles – Jim explicou – porque sei que eles não precisam de mim para sair desta situação.
- Acha mesmo isso? – a figura encapuzada gargalhou – Pois para mim parece apenas que você está admitindo o péssimo líder que é.
- Eu costumava achar que tinha obrigação de salvar a todos. – refletiu o guerreiro. A luz azulada crescia gradativamente – E me culpava por não ser capaz. Mas um verdadeiro líder deve confiar em seus companheiros. Eu confio totalmente na capacidade de cada um do meu grupo. Quando sairmos daqui, vamos rir juntos de suas tentativas patéticas de nos confundir. O que quer que você seja.
- Veremos... – respondeu o inimigo enquanto desaparecia, mais raivoso que em qualquer momento anterior.
Lael, Draenis e Dalariok
O bardo estava envolto pelos tentáculos negros formados pela sombra de seu inimigo de olhos vermelhos. Sua consciência esvaziava-se rapidamente, deixando lugar apenas para dúvidas e escuridão.
“Por quê?! Por que eu?! Eles não podem depender de mim para ajudá-los, eu sou um fracasso! Não consigo ajudar nem a mim mesmo!”
“Pare com isso, seu ladino idiota!” - outra voz surgiu em sua cabeça, um pedaço oculto de sua personalidade. A voz parecia a sua própria, porém determinada como nunca fora ouvida antes - “Eles precisam de você, não precisam?”
“Mas como eu posso ajudá-los? Sou um inútil! Não consigo ajudar nem a mim mesmo...”
“O que te impede de tentar? Pare de se apoiar em seus amigos e comece você a apoiá-los quando eles precisam.”
“Não é assim tão simples.”
“Ninguém disse que seria fácil...”
Lael percebeu a luz azulada intensificar-se e invadir sua visão. Desvencilhou-se, com alguma dificuldade, dos tentáculos que o prendiam, e dirigiu-se para seus companheiros, também detidos.
- Levantem-se! – gritou – Draenis, pare de choradeira! Assim mesmo é que Kunst não te dará ouvidos! O que a deusa da música e das artes pensaria de alguém que se cala e chora quando algo de ruim acontece?
A clériga levantou-se, parando de chorar e fazendo esforço para se libertar das sombras. Sorriu brevemente para Lael, espalmou as mãos à sua frente e começou a cantar e dançar. Para a surpresa do encapuzado de olhos vermelhos, Draenis recuperou na mesma hora o contato com sua deusa, e suas mãos começaram a emitir um brilho claro e quente.
- Dalariok! – o bardo gritou novamente – Trate logo de se levantar e pegar seu arco!
- Não sei se você reparou, mas eu não vejo nada. – respondeu o arqueiro, apático – Não posso disparar flechas assim...
- Você ainda tem seus outros sentidos, idiota! – retrucou Lael – Isso não é desculpa para agir como um derrotado!
Dalariok desvencilhou-se facilmente dos tentáculos, encaixou uma flecha no arco e puxou a corda até o final.
- Não! – dessa vez foi a voz rouca e esganiçada que exclamou – Parem com isso! Retornem ao medo e ao desespero!
A criatura foi calada por uma sequência de flechas disparadas por Dalariok, todas emanando um brilho claro absorvido das mãos de Draenis.
A luminosidade azulada começou a crescer, inundando todo o ambiente. Os tentáculos de sombra desapareceram, e a figura encapuzada recolheu-se no chão, impotente. Gradativamente, a luz cresceu tanto que ofuscou a visão dos três aventureiros. Por fim, todos os três desmaiaram novamente.
Liana, Azmuth e Garrukk
Caída de costas no chão e presa por serpentes e tentáculos de sombra, a ranger por um momento quase desistiu. Sua visão foi se turvando até tornar-se apenas um enorme borrão escuro. “O pior” – ela pensou – “será morrer assim, sem nem ao menos sentir o abraço de Danna vindo buscar meu corpo e meu espírito.”
De repente, algo surgiu em meio ao redemoinho escuro de sua visão. Dois pontos fixos amarelos, que se tornaram dois olhos felinos e começaram a encará-la sem piscar. Pela primeira vez desde que chegara àquele estranho lugar, Liana sentiu a presença de vida, de vida selvagem. Esticou suas mãos para frente e sentiu algo peludo que não conseguia ver. Em seguida levou uma das mãos ao chão. Ao invés do chão morto e pedregoso, a ranger sentiu uma fina camada de neve, alojada sobre a vegetação rasteira ainda viva.
Com esforço, alcançou as espadas curtas, desvencilhou-se dos tentáculos de sombra e das serpentes e ergueu-se.
- Vamos, companheiros! – gritou para Azmuth e Garrukk, partindo para cima do inimigo de olhos vermelhos – Não desistam ainda! Vamos lutar com essa coisa e derrotá-la!
- Como posso lutar? – perguntou o mago, ainda parado de pé – Ele tomou de mim meus poderes mágicos.
- E tomou também minha força. – acrescentou o bárbaro, ainda de joelhos com os braços para trás.
- Azmuth, você desenvolveu seus poderes com anos de estudo e dedicação. – falou Liana, enquanto forçava o inimigo a desviar de seus golpes de espada – E você, Garrukk, conquistou sua força com muito treino e esforço. Essa coisa não pode realmente tirar isso de vocês, assim como não pôde me separar de verdade da Mãe Terra. Ele apenas nos fez acreditar que podia.
- NÃO! – exclamou o ser encapuzado – Vocês não podem fazer isso!
A luz azulada se intensificava cada vez mais rapidamente. Azmuth começou a pronunciar palavras no Idioma Arcano; suas mãos se incendiaram e seus mantos começaram a revoar com o vento circular criado pela conjuração. Garrukk tencionou seus poderosos músculos e sentiu todas as grandes serpentes que o prendiam romperem-se como se fossem papel.
- Isso tudo é apenas uma ilusão. – concluiu a ranger – E nós vamos quebrá-la!
O bárbaro saltou à frente e agarrou a figura encapuzada pela cintura com os dois braços, como um urso. Em seguida girou todo o seu corpo e arremessou para o alto, passando dos cinco metros de altura. Com uma última e sonora palavra de invocação, o mago fez o inimigo explodir em chamas e cair de volta no chão chamuscado e semimorto. A luz azulada cresceu até o ponto de ofuscar os aventureiros e fazê-los apagar.
Dia um – Amanhecer – Montanhas
Jimhold despertou. A primeira coisa que percebeu é que a luminosidade que estivera perseguindo o tempo todo era nada mais que o brilho do céu azul. Viu-se deitado em um chão nevado, próximo à saída de uma caverna. Seus companheiros de grupo estavam espalhados no chão á sua volta.
Cansado demais para se levantar, arrastou-se pelo chão, checando cada um de seus amigos. Estavam todos bem, apenas dormindo tranquilamente. Havia um grande felino de olhos amarelos e pelagem branca com manchas negras deitado sobre o peito de Liana, lambendo carinhosamente seu rosto.
Jim avistou vultos de pessoas caminhando à distância. Reunindo as poucas forças que lhe restavam, conseguiu pôr-se precariamente de pé e começou a acenar, gritando por ajuda. Depois de algum tempo acenando, foi percebido por uma das pessoas, que vieram imediatamente correndo em sua direção. Satisfeito, o líder pôde finalmente sucumbir à exaustão e desmaiar.
FIM.
(...)

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