quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Aventura #1 - Torre de lama


Dia zero – Noite – Taverna na cidade portuária de Avisle

            A porta da taverna se abriu, deixando entrar o ar noturno, e um grupo de quatro pessoas cruzou a soleira. Não portavam armas, armaduras ou quaisquer objetos suspeitos, mas um observador mais experiente logo notaria, pelas vestimentas e hábitos estranhos, que se tratava de um grupo de aventureiros.
            O primeiro a entrar (Jimhold, o guerreiro) era um jovem adulto por volta de seus vinte e dois anos, forte e de estatura mediana, com cabelos curtos e escuros e uma barba rala. Era seguido por outro homem (Azmuth, o mago), mais alto e um pouco acima do peso, com idade próxima à do primeiro e que lia um livro compenetradamente enquanto andava. Logo atrás, uma moça mais jovem, pouco mais que uma adolescente (Draenis, a clériga), baixa, magra, cabelos curtos e vestindo uma roupa talvez comportada demais para tal ambiente. Fechando a fila, um rapaz quase adolescente (Lael, o bardo ladino), baixo, magrelo e muito branco, vestido elegantemente e carregando um alaúde.
            A taverna em si era um local bem calculado. Não era das mais baratas - onde é impossível passar uma noite sem se envolver em alguma confusão - nem das mais caras - onde o silêncio é muito grande e os funcionários mantêm-se sempre de ouvidos em pé. Era um estabelecimento mediano, destes onde um grupo pode passar a noite inteira sem ser incomodado, ao mesmo tempo em que há barulho o suficiente para manter sua conversa privada. Em suma, um local frequentemente escolhido por aventureiros para planejar suas viagens. Existe um motivo para a maioria das aventuras começarem em uma taverna...   
            Em meio à música, cantoria e conversas em voz alta, o guerreiro e líder do grupo identificou, sentado sozinho em um canto, quem estava procurando. Uma misteriosa figura encapuzada; um mago que supostamente possuía uma missão ou aventura (termo usual no ramo) para oferecer-lhes. Os aventureiros sentaram-se à mesa com o possível empregador e teve início a negociação.
Depois de cerca de quarenta minutos, estavam acertados os detalhes. Ao que parecia, uma região específica da grande floresta de Wintstohr estava sendo afetada por uma estranha moléstia: árvores estavam murchando, animais estavam fugindo ou aparecendo mortos e o Povo da Floresta (um povo misterioso, que a maioria das pessoas não sabe bem se são humanos ou de outra raça) não ousava se aproximar do local. Quase simultaneamente, vários grupos de humanóides reptilianos, de espécies diferentes, haviam descido das montanhas e se instalado nesta região, de onde partiam para atacar vilarejos humanos na beira da selva.
            De acordo com o mago (que, a propósito, se chamava Saltus), uma possível explicação, ao menos para o primeiro fenômeno, vinha de uma lenda do Povo da Floresta. Segundo a lenda, havia uma torre ancestral no meio da mata que selava alguma forma de poder maligno. Os interesses do mago eram em relação a essa torre; embora sua localização fosse desconhecida (e sua existência, desacreditada), Saltus estava confiante de que ela era a origem de todas as coisas estranhas que estavam acontecendo, e estava oferecendo ao grupo a excelente quantia de quarenta moedas de ouro (equivalente a 400 de prata, 4.000 de bronze ou 40.000 de cobre, e o suficiente para comprar uma casa pequena na cidade) para encontrarem a torre e descobrirem sua ligação com os fenômenos. O mago também daria um bônus em troca de um objeto em específico: um livro pequeno de capa e páginas negras. Para finalizar, os aventureiros poderiam ainda ficar com todos os tesouros (termo do ramo que significa qualquer item de valor pilhado ou encontrado durante uma aventura).
            O pagamento era alto. Alto demais, o que quase nunca é bom sinal. Pagamento alto significa, invariavelmente, trabalho difícil. Mas Jim tinha confiança em seu grupo, e aceitou a aventura. Saíram de lá com um contrato assinado por ambas as partes (o trabalho de aventureiro não é oficializado e contratos deste tipo não têm qualquer valor legal, mas magos gostam de manter tudo por escrito), um mapa com instruções para se encontrarem com o guia que os conduziria através da floresta e  um adiantamento de metade do pagamento combinado. Partiriam de manhã, dali a dois dias, e levariam mais cerca de três de cavalgada para chegar ao ponto de encontro.

Dia cinco - Manhã – Bordas da floresta de Wintstohr

            Jimhold, Azmuth, Draenis e Lael avistaram o ponto de encontro. Era uma bela manhã ensolarada, e os aventureiros cavalgavam subindo o leito de um riacho pedregoso cheio de peixes que brilhavam como jóias na água fria como gelo. No horizonte, era possível divisar a cordilheira que se ergue no meio da floresta, com seu topo eternamente congelado resplandecendo ao sol de verão.
            Logo à frente, na borda da mata, erguia-se uma pequena colina verdejante. Do outro lado, já atrás da linha de árvores, se encontrava o ponto de encontro: um pequeno vale pelo qual passava o rio. Os aventureiros apressaram o galope, com a típica ansiedade que se sente antes de uma aventura.
            Ninguém os esperava na clareira, mas havia sinais claros de um acampamento simples, portanto eles aguardaram. Não por muito tempo; dentro de menos de quinze minutos, surgiu do meio das árvores uma mulher que fez os homens babarem.   
            As roupas justas de couro deixavam à vista um corpo atlético bem torneado e uma pele clara como a neve das montanhas. Vestia uma calça simples, justa e rústica, uma camiseta curta que deixava os braços e a barriga à mostra, botas leves de cano longo e luvas cortadas que não cobriam as pontas dos dedos. Pendiam da parte de trás de seu cinto duas espadas curtas de lâmina curva, e de sua mochila grande de couro uma besta leve e uma aljava. À medida que ela se aproximou, puderam ver melhor seu rosto.
            Os cabelos lisos e escuros estavam presos em uma trança comprida, amarrada com uma corda fina enfeitada por penas coloridas. Seu rosto, apesar de parecer delicado, sustentava uma expressão firme, e uma pintura escura ao redor dos olhos lhe dava um ar misterioso. Era, sem sombra de dúvida, uma patrulheira do Povo da Floresta. 
            - Quem os enviou aqui? – perguntou a ranger, direta e encarando o líder do grupo.
            - O mago Saltus nos enviou aqui. – respondeu Azmuth, vendo que Jim não parecia capaz de responder. – Você é nossa guia?
            - Creio que sim. – ela respondeu – Me chamo Liana. Estava preparando um lugar para deixar seus cavalos; não podem levá-los para dentro da mata.
            - Prazer em conhecê-la Liana. – disse Jim, finalmente quebrando sua mudez repentina e dando um passo à frente. Era a primeira vez que uma mulher o deixava nervoso. – Eu sou Jimhold, o líder deste grupo. Esses são Azmuth, o mago, Lael, o bardo, e Draenis, a clériga de Kunst.
            - Quem é Kunst? – perguntou a guia, parecendo curiosa.
            - A deusa da música e das artes. – respondeu Lael, surpreso. - É uma deusa bastante cultuada, não acredito que nunca tenha ouvido falar.
            - A única deusa a quem meu povo presta reverência é Danna, a Mãe Terra. - comentou Liana - A única deusa verdadeira.
            Draenis ficou azeda de raiva e fez menção de discutir, mas Jim a silenciou com um gesto. A clériga era comumente pacata e até gentil, mas se transformava em fera se alguém falasse qualquer coisa contra sua divindade.
            - De qualquer modo... – a ranger quebrou o silêncio incômodo que se seguiu – Eu vou levar seus cavalos. Aguardem aqui, e assim que eu voltar seguiremos mata adentro.
           
Dia seis – Tarde – Interior da floresta de Wintstohr

            Não há muito que se contar sobre a primeira parte da viagem, exceto que ela foi como qualquer caminhada pela floresta de Wintstohr. Essa mata fechada é particularmente perigosa, cheia de insetos portadores de doenças, serpentes peçonhentas e animais carnívoros de grande porte. Outros riscos envolviam a própria morfologia do terreno; fendas e paredões rochosos, lamas movediças, deslizamentos e inundações relâmpago. Os camponeses comuns raramente se aventuravam além de suas bordas.
            Mas o grupo não era de camponeses, era de aventureiros. E, mais importante, tinham uma guia mais que especializada. Ela queimava ervas especiais que afastavam os insetos, evitava as serpentes e outros animais selvagens e, principalmente, conhecia cada trilha, riacho, ravina e árvore tombada daquele lugar. Por isso, o grupo viajou bastante rapidamente.
            O primeiro dia de viagem transcorreu em silêncio. Liana ignorava as eventuais tentativas de Jim de puxar assunto, enquanto o resto do grupo conversava pouco simplesmente para guardar o fôlego. Acamparam a primeira noite em uma pequena gruta indicada pela ranger, protegidos da chuva que cai todo final da tarde na floresta. Revezaram turnos de vigia e partiram assim que o sol nasceu.
           
            Na tarde seguinte, Jim fez mais uma tentativa de puxar assunto com Liana. A guia liderava a fila, o guerreiro a acompanhava de perto e o resto do grupo seguia um pouco mais atrás.
            - Saltus disse que você não pediu recompensa pelo seu trabalho. – comentou Jim – Por que não?
            - Não sou uma mercenária imunda como vocês da cidade. – respondeu a ranger rispidamente, sem olhar para trás. – Luto apenas pela Mãe Terra.
            - Não me leve a mal. – o guerreiro apressou-se a dizer – Eu também me importo em acabar com o que está matando as árvores e os animais. Mas não vejo mal em ganhar algo em troca, já que alguém está disposto a pagar...
            - E isso diferencia vocês de nós.
            - Se seu povo está tão preocupado com a floresta, por que não fazem nada? São fracos demais? – provocou o guerreiro
            Pela primeira vez, Liana olhou para trás e encarou Jim nos olhos. Não parecia irritada pela provocação; parecia desapontada, mas não com o guerreiro.
            - Existem guerreiros muito fortes entre meu povo. – respondeu, depois de refletir brevemente – Mas todos respeitam demais os Anciões, os druidas que lideram nossas vilas e nosso culto à Mãe Terra. E os Anciões dizem para sermos pacientes, para não nos envolvermos.
            - E você discorda, pelo que posso entender. – sugeriu o guerreiro.
            - Sim. Se esperarmos o mal alcançar nossas vilas, será tarde demais para enfrentá-lo. Por mais que eu respeite os Anciões, não posso cruzar os braços enquanto vejo a natureza definhar lentamente.
            - Não vai arrumar problemas se eles descobrirem que está nos ajudando?
            - Provavelmente. Posso até ser banida, mas espero que isso não aconteça...
            - Você é muito corajosa por estar fazendo isso. Estou impressionado. – a ranger podia sentir a sinceridade na voz do guerreiro.
            Pela primeira vez, Liana quebrou sua postura rude e sorriu para Jim; o sorrisinho encabulado de uma pessoa solitária que não estava acostumada a lidar com pessoas, muito menos ser elogiada. “Isso aí rapaz!” pensou o guerreiro consigo mesmo. “Se você ganhou um sorriso, ganhou a garota!”
            - Mas então. – o guerreiro mudou de assunto – O que você sabe sobre uma torre maligna no meio da floresta?
            - Pra começar, que ela talvez nunca tenha existido, ou existiu no passado, mas já foi destruída. – respondeu a ranger – E, se ela ainda existe, não está propriamente no meio da floresta, mas sim do pântano.
            - Pântano? – Jim estava surpreso – Saltus não mencionou nenhum pântano.
            - Existe um pântano no meio da floresta, fruto das águas que descem das montanhas. É exatamente o local onde os homens-lagarto se instalaram quando desceram das montanhas, e também onde a lenda conta que existia, ou ainda existe, uma torre.
            - Tem como me contar a lenda? Temos um bom tempo de caminhada pela frente, de qualquer maneira...
            - Certo. – Liana começou a narrar a lenda, em voz alta o suficiente para o restante do grupo também ouvir:
            “Os Anciões contam que há muitos séculos atrás, um poderoso feiticeiro maligno construiu uma torre no meio da floresta. Sua magia era tão poderosa que ele a usou para transformar os arredores em um pântano, erguer um exército e reunir um culto maligno à sua imagem. Segundo alguns, o feiticeiro se tornou tão poderoso que ascendeu ao nível de uma divindade menor, e o mal que emanava de sua torre estava matando as árvores e os animais, e atraindo monstros terríveis das profundezas das montanhas.”
            “Os druidas, mesmo com toda a sua neutralidade e pacifismo, não podiam mais ficar parados. Convocaram um Conselho Druida, algo que aconteceu poucas vezes em toda a história da floresta, e marcharam contra a torre. Com a ajuda dos poderes de Danna, conseguiram derrotar o culto, mas é aí que as versões se dividem. Segundo a versão oficial, ensinada pelos Anciões, os druidas antigos mataram o feiticeiro, queimaram seu corpo e destruíram a torre com tudo o que estava dentro. Mas alguns druidas mais isolados contam uma versão diferente do final da história. Dizem que os antigos não conseguiram matar o feiticeiro nem destruir sua torre; portanto aprisionaram-no dentro da torre, a selaram e purificaram o pântano.”
            “Agora que estas coisas estranhas estão acontecendo, estão correndo boatos de que o selo foi destruído e o mal da torre se espalha outra vez sobre nossa floresta. Os Anciões negam tudo, é claro, mas...”
            Liana interrompeu a frase e se deteve abruptamente.
            - Desgraçado da cidade, me distraindo no meio de uma caçada! – ela exclamou, puxando as espadas curtas.
            - O que deu em você?! – perguntou Jim, confuso. Achava que havia conseguido virar a situação com a ranger, mas agora já não tinha tanta certeza.
            - Estamos cercados! – exclamou ela de novo, enquanto o resto do grupo os alcançava.
            No momento em que os aventureiros puxaram suas armas, procurando os inimigos no mato ao redor, uma flecha veio zumbindo e acertou Jimhold no ombro. Felizmente, a flecha era rústica e frágil demais para ultrapassar a pesada cota de malha do guerreiro. Mas poderia ser perigosa para Lael, Azmuth e Liana, que não usavam armadura, ou para Draenis, que vestia uma malha de aço mais fina.
            Por isso, quando sete novas flechas surgiram em meio à folhagem, vindas de todas as direções, Azmuth murmurou algumas palavras no Idioma Místico, acenou com seu cetro e uma rajada de vento soprou em todas as direções a partir do centro do grupo e desviou as flechas. Tendo seu ataque à distância frustrado, os atacantes se aproximaram para o combate corpo a corpo, finalmente permitindo que os aventureiros vissem sua aparência.
            Pareciam uma grotesca mistura entre humanóides e repteis. Eram mais baixos que humanos, tinham as costas curvas, pele coberta de escamas esverdeadas, braços compridos que terminavam em mãos com garras e pernas que lembravam as patas traseiras de algum animal quadrúpede. A postura curvada para frente era equilibrada por uma cauda curta e grossa, e a cabeça lembrava a de um crocodilo, porém com a bocarra ligeiramente mais curta e larga.
            As sete criaturas se aproximaram; vestiam trapos em volta da cintura e tiras de couro penduradas pelo corpo, e empunhavam lanças e tacapes de madeira e facões de ferro roubados dos humanos. Cercaram os aventureiros e começaram o ataque.        
           Foi um combate breve e fácil; não chegando a durar vinte segundos. Com uma benção, Draenis tornou Jim, Liana e Lael mais ágeis e fortes. O guerreiro matou as duas primeiras criaturas com apenas um giro da espada longa, ao mesmo tempo em que bloqueava com a curta um golpe de uma terceira criatura que iria acertar Azmuth. Lael esfaqueou esta criatura pelas costas, enquanto Liana evitava uma estocada de lança e abria a garganta de seu agressor com suas espadas gêmeas. Um das criaturas fez menção de sair correndo, mas Jim saltou sobre ela, cravando as duas lâminas em suas costas. Ele próprio foi salvo de um golpe pelas costas por intervenção da ranger, que degolou o atacante.
            A sétima e última criatura estava escapando. O líder olhou para Azmuth e gritou:
            - Pegue-o vivo!
            O mago acenou um movimento específico com o cetro em direção ao homem-lagarto, ao mesmo tempo em que pronunciava palavras diferentes no Idioma Místico. Um choque invisível percorreu todo o corpo do réptil, paralisando-o bruscamente e fazendo-o emborcar como uma tábua no chão. Antes que pudesse se recompor, a criatura estava cercada e sendo amarrada pela ranger.
            - Pra que quis capturá-lo vivo? – perguntou Liana, enquanto lutava para imobilizar bem a criatura, que se contorcia – Os homens-lagarto não falam nossa língua, não vai conseguir nada com ele.
            - Se ele não fala nossa língua, então teremos que falar a dele. – respondeu Jim, sorrindo marotamente – Azmuth, uma poção de idiomas, por favor.
            O mago pegou em sua mochila um frasco de vidro, identificado com uma runa incompreensível para qualquer um dos outros. Retirou a rolha e tomou um gole breve; em seguida passou o frasco adiante, e todos fizeram o mesmo. A última foi Liana, desconfiada.
            Diferente do resto do grupo, a ranger nunca havia bebido uma poção arcana; não havia magos e suas poções entre o povo da floresta, apenas druidas e seus preparados de ervas. A sensação era esquisita; um formigamento na boca, nos olhos e no interior dos ouvidos, acompanhado por um incômodo na barriga e uma leveza incomum na cabeça. Essas sensações desapareceram em pouco tempo, e Liana percebeu na mesma hora que os grunhidos desconexos do homem-lagarto agora eram frases compreensíveis, embora simples e rústicas.
            - O mestre vai pegar vocês! – resmungava a criatura – Vocês mataram nós, mas o mestre vai pegar vocês! Vai abrir vocês, vai arrancar as tripas e vai enfiar ferro em vocês.
            - Nos poupe de suas bravatas, réptil desprezível. – era Liana quem falava, com asco na voz – Quem é seu mestre? Por que ele trouxe vocês das montanhas?
            - O mestre e os aprendiz dele chamou nós, e nós veio. Nós obedece o mestre, porque ele é forte e mata vocês, arranca as tripas de vocês.
            - Assim não vai dar certo. – concluiu Jim, calmamente – Draenis, Lael, dêem seu jeito para tornar nosso hóspede mais... cooperativo.
            O bardo ladino pegou seu alaúde e começou a dedilhar uma melodia estranha e misteriosa, enquanto a clériga encarava o homem-lagarto no fundo dos olhos e cantava baixinho uma prece à sua divindade. Os olhos da criatura, antes se movendo escusamente, tornaram-se vidrados e vazios de vontade; seus músculos se imobilizaram e ela permaneceu olhando fixamente, hipnotizada.
            - Quem é seu mestre, e por que ele trouxe vocês aqui? – Jim refez a pergunta da ranger.
            - O mestre é poderoso. Trouxe a gente pra cavar um buraco, e nós cavamos. Agora matamos os homens e levamos os corpos pra jogar no buraco que cavamos pro mestre.
            - Pra que fazem isso? – perguntou Draenis.
            - Porque o mestre manda.
            - Não vamos conseguir muito interrogando capangas estúpidos que não sabem de nada. – concluiu Lael – Vamos matá-lo ou deixar ele ir?
            - Calma. – respondeu Jim, pensativo – Draenis, por quanto tempo consegue manter a hipnose?
            - A mente dele é fraca, mas se eu mantiver o controle por muito tempo vou acabar esgotada.
            - Então vamos levá-lo amarrado conosco. – ordenou o líder – Quando chegarmos ao pântano, você refaz a hipnose e usa-o para nos guiar.
            - Faz sentido. – concluiu Liana – Nem eu sei me deslocar direito naquele pântano, quanto mais encontrar o lugar que estamos procurando.

Dia sete – Floresta de Wintstohr

            A segunda parte da viagem foi muito mais penosa que a primeira. Não apenas o terreno se tornava mais difícil à medida que se aproximavam da cordilheira, como agora tinham que puxar um convidado nem um pouco cooperativo. O reptiliano fazia tentativas de escapar nos momentos mais inoportunos, quando o grupo já estava sofrendo dificuldades em transpor rios ou escalar paredões rochosos. Os aventureiros acamparam mais uma noite na floresta, bem no limiar da área devastada. Partiram, como sempre, cedo, e examinaram a destruição.
            A degradação era visível até ao mais desatento observador. À medida que penetravam na desolação, mais e mais árvores estavam completamente desfolhadas, enquanto as restantes possuíam apenas folhas mortas e escuras. A vegetação rasteira havia desaparecido, assim como todos os sons normais dos animais silvestres. O silêncio sepulcral era acompanhado por uma concentração de nuvens escuras no céu, que lançava sobre toda a cena uma iluminação cinzenta amarelada.
            É certo também que a desolação da mata facilitou a travessia; os aventureiros alcançaram a borda do pântano rapidamente, e passaram a ser guiados pelo hipnotizado homem-lagarto. E a última e mais infernal parte da viagem começou. O pântano em si era um grande alagado lamacento, entrecortado por um labirinto de estreitos caminhos de terra razoavelmente firme e pontilhado de árvores baixas, escuras e retorcidas. Uma névoa densa se desprendia de pontos onde a lama borbulhava e dificultava a visão e a respiração. A névoa era venenosa, mas Draenis e Liana protegeram o grupo dos efeitos nocivos com uma combinação de benção divina e plantas naturais.
            Mas havia algo de mais sinistro do que lama e veneno naquele pântano. Sinistro e intangível. Quanto mais andavam, mais uma sensação de vazio e desespero se apoderava dos corações dos antes destemidos aventureiros. Draenis e Lael, emocionalmente mais frágeis, já se encontravam em frangalhos antes do cair da noite. Jimhold e Azmuth agüentavam melhor, mas também estavam começando a fraquejar. Apenas Liana ainda parecia calma; nenhuma tarefa maçante ou encantamento de desespero era capaz contra a paciência inabalável do Povo da Floresta.

            - Deixem-nos pra lá, apenas sigam em frente! – gritou Jim, abrindo caminho com as duas espadas.
            Uma quantidade gigante de zumbis havia se erguido da lama fétida, cercando os aventureiros, que corriam entre eles decepando braços e arremessando cabeças de volta à lama. O grupo mal conseguia seguir seu guia reptiliano, de tão rápido que ele era naquele tipo de terreno.
            - Vocês sabem o que isso significa, não sabem? – perguntou Draenis, sem parar de correr.
            - Maldição, culto nefasto ou necromante. – respondeu Azmuth, esbaforido – Vamos torcer para que não seja a terceira opção.
            Foi uma corrida afobada e desesperada, tentando deixar os cadáveres para trás. Conseguiram ao alcançar o que deveria ser o centro do pântano, após quase vinte minutos. Todos, exceto a ranger, caíram arfando no chão. O espaço que se estendia a frente era diferente do anterior: não havia mais valas alagadas, apenas solo firme levemente lamacento e uma concentração de vegetação escura, retorcida e estranha. O homem-lagarto os despistou no meio da vegetação, e não conseguiram trazê-lo de volta.
            - Criatura desprezível! – exclamou Jim – Vai avisar aos outros que estamos aqui!
            - Temos que ser mais cuidadosos e furtivos agora. – advertiu Lael.
            - Ao menos parece que já estamos mais próximos ao que procuramos. – apontou Liana – Não será tão difícil agora.

            Havia ao menos uma vila de homens-lagarto em meio àquela vegetação estranha. Era meio da noite – o período de maior atividade dos reptilianos – e a vila estava quase completamente deserta, por isso o grupo contornou-a facilmente sem serem incomodados. Mais além, os aventureiros avistaram o que parecia ser o buraco ao qual o homem-lagarto se referira. E era impressionante.
            A cratera circular devia ter quase cinquenta metros de diâmetro, mais cerca de trinta de profundidade. Havia sido cavada em níveis, em formato cônico, e seu ponto mais fundo não possuía mais do que trinta metros de diâmetro. As paredes de terra úmida e lamacenta eram escoradas por armações de madeira, e uma rampa descia até o fundo do buraco. Enquanto os aventureiros observavam escondidos, um grupo de reptilianos de uma espécie de grande porte (três metros de altura) desceu, depositou o que pareciam ser cadáveres humanos e então foram embora atacar mais vilas.
            - Não sei quanto a vocês, mas isso não me parece muito uma torre... – comentou Lael, tentando ser engraçado. O efeito era arruinado por suas olheiras e sua expressão de acabado.
            - Vamos descer. – ordenou Jim – Se isso não for a origem dos problemas, não sei o que pode ser.
            O fundo do buraco era um círculo formado por grandes pedras retangulares, cercado por uma mureta de grandes tijolos também de pedra. Isso era o que havia ocorrido com a torre: os druidas antigos não apenas a selaram, mas a enterraram no meio do pântano, para dificultar que fosse encontrada.
            No topo da torre se encontravam cinco corpos alinhados, como se esperassem para serem levados dali. Em um dos cantos havia um pesado alçapão de madeira, trancado. Lael destrancou a fechadura com facilidade (desativando também uma armadilha acoplada) e o grupo se viu no topo de uma escada de pedra que levava a um lugar escuro. Entraram.

Dia sete – Noite – Interior da Torre do Pântano

            Tudo era escuridão. Azmuth conjurou um globo de luz mágica, revelando que a escada de pedra descia por apenas alguns metros antes de alcançar o próximo nível. O andar devia ser amplo, mas estava dividido em cubículos quadrados formados por paredes que não alcançavam o teto. Luz e vozes de homens-lagarto escapavam por cima da parede de um dos cubículos; os reptilianos deveriam estar montando guarda, mas ignoravam a vigília e, ao invés disso, se divertiam de alguma forma. Agradecendo a incompetência de seus inimigos, os aventureiros foram adiante. Pouparam-se de vasculhar o andar inteiro (que parecia vazio, de qualquer maneira) e desceram ao nível inferior através da primeira escada que encontraram.
            O próximo andar foi mais complicado. Assim que chegaram ao pé da escada, os aventureiros perceberam que teriam um problema; o lugar era um alojamento de uma raça menor de homens-lagarto, que deviam trabalhar para quem controlava a torre. Não pareciam ser muitos, mas o grupo foi avistado. Três reptilianos tentaram emboscá-los em uma curva no corredor e foram eliminados em segundos, mas não antes que uma quarta criatura visse e saísse correndo, dando o alarme. O grupo não havia entrado há cinco minutos e já tinha perdido o elemento surpresa. 
            A presença dos aventureiros causou um completo caos nos alojamentos dos homens-lagarto. As criaturas começaram a correr de um lado para o outro, procurando armas e gritando em sua língua ininteligível. Alguns conseguiram vencer a confusão e se organizar o suficiente para atacar os aventureiros, mas eram retalhados e atropelados, aumentando ainda mais o pânico dos demais. Sendo criaturas estúpidas, que se organizam como em colônias, os reptilianos não têm capacidade de improvisar e reagir espontaneamente a imprevistos, apenas obedecer a ordens cegamente. O grupo aproveitou-se disso para serpentear por entre os corredores labirínticos em relativa segurança e encontrar uma descida para o próximo nível.
            O andar debaixo era ainda mais escuro. Possuía poucas paredes e pilastras reais de pedra, mas corredores eram formados nos vãos entre os blocos de caixas de madeira e outros objetos empilhados. O lugar parecia um grande depósito. Não parecia haver qualquer ouro ou arca de tesouro ali, apenas grandes quantidades de alimentos, ferramentas e bens gerais, suficientes para manter todos os homens-lagarto. Depois de uma busca superficial nos arredores da entrada, os aventureiros seguiram adiante.
            Gradualmente, a algazarra dos reptilianos no andar superior, que descia através da escada, foi sumindo, abafada pelas camadas de itens estocados. A natureza dos objetos armazenados também foi mudando; havia uma quantidade de armas e armaduras suficientes para equipar um pequeno exército. Ainda mais à frente, em uma seção separada, Azmuth encontrou materiais que eram certamente usados em experiências arcanas: velas, óleos, pedaços de animais mágicos e minérios raros. O grupo resolveu parar por um momento, a fim de descansar e assimilar a torrente de novas informações.
            - Não foi o que eu chamaria de uma entrada triunfal, grupo. – começou Jim.
            - Definitivamente nada sutil. – completou Lael.
            Era estranho como os aventureiros pareciam mais tranquilos neste momento que antes de entrarem; a tensão que precede a exploração de uma masmorra é sempre pior que a exploração em si.
            - Não creio que devamos nos preocupar muito com os lagartos. – continuou o líder – São fracos e covardes demais pra nos causar maiores problemas. Tenho receio é do resto. Azmuth, o que mais podemos esperar da torre de um necromante?
            - Eu esperaria mortos-vivos, é óbvio. – respondeu o mago – Além de algumas maldições bem desagradáveis nos níveis mais inferiores. Pra ser honesto, estou surpreso por ainda não termos sido atacados por nada melhor que alguns repteis.
            - Talvez isso signifique que não há um necromante... – sugeriu Lael, esperançoso.
            - E os equipamentos que vimos ali atrás? – perguntou Liana – Acha que são pros zumbis? Que alguém está tentando criar um exército deles?
            - É o que tudo indica. – opinou o mago – Não foi um grande mistério, no final das contas...
            - Não, não pode ser só isso. – alertou Jim. Seus instintos de guerreiro jamais erravam – Se fosse este o caso, nosso chefão do mal não precisaria procurar uma torre lendária no meio de um pântano. Poderia fazer em qualquer lugar. Tem que haver algo mais...
            - O que, por exemplo? - perguntou Draenis.
            - Não faço a menor idéia. – respondeu o líder, com sinceridade – Mas algo me diz que tem a ver com o livro que Saltus nos pediu pra procurar. Portanto, fiquem atentos e não vacilem. Vamos seguir em frente.
            Antes mesmo de começar a descer as escadas, os aventureiros sentiram que o andar abaixo era violentamente mais frio. E sentiram também seu odor: um odor nauseabundo, que a maioria das pessoas torce para não sentir nunca mais. O cheiro de cadáveres. Em grande quantidade. Quando o globo de luz conjurado por Azmuth iluminou o local, os aventureiros ficaram chocados. Lael tentou bloquear sua própria visão e Draenis teve uma ânsia de vômito.
            Cadáveres às dezenas pendiam do teto, segurados por correntes e ganchos de ferro e conservados pelo frio intenso. O andar não possuía paredes divisórias, apenas algumas pilastras de sustentação. Era uma gigantesca câmara frigorífica, que já devia conter quase uma centena de corpos. Foi apenas com muita força de vontade e uma canção inspiradora de Lael que os aventureiros conseguiram se forçar a ir em frente, procurando as escadas de descida. O bardo cantou sobre um grupo de heróis que cruzou os Bosques dos Mortos, rumo ao Submundo.
            Colada a uma das paredes da torre, encontraram um tubo grande de metal, que descia verticalmente. Lembrava um escorrega grotesco, e parecia ser usado para descer os corpos a algum andar inferior.
            - Nem pense nisso, Jim! – exasperou-se Lael, olhando para o tubo.
            - Hmm, em que? – perguntou o líder, erguendo uma sobrancelha.
            - É sério, Jim. Não vai nos forçar a descer por aí. – Draenis também parecia exasperada.
            - Não me lembro de ter proposto isso. – respondeu o guerreiro, sorrindo ironicamente.
            - Eu conheço você, estava prestes a dar essa idéia. – continuou o ladino - Mas pode esquecer, não vai acontecer.
            - Certamente chegaríamos ao fundo mais rápid...
            - Não! Sério, vamos embora. Vamos procurar as escadas. – Lael interrompeu-o.
            - Certo, certo! – Jim parecia se divertir com o desespero de seus colegas – Em frente, então. Não propus nada mesmo...
            Mas dessa vez não seria tão fácil alcançar o próximo andar. Bloqueando as escadas que davam acesso ao próximo nível havia uma parede, com um grande portão de ferro. As portas, densamente gravadas por símbolos arcanos em alto e baixo relevo, abriam-se no meio e para dentro, mas uma gigantesca e elaborada fechadura as mantinha cerradas.
            - É, estava fácil demais até aqui. – comentou Jim – Lael, acha consegue abrir isso?
            - Posso tentar... – respondeu o ladino, sem muita confiança.
            Assim que Lael tocou a fechadura, o propósito das inscrições na porta foi revelado. O ladino sentiu-se imediatamente fraco e caiu de joelhos, a mão ainda colada na fechadura. Sua pele começou a ficar ressecada e cinzenta, sua carne começou a minguar, deixando-o magro como um esqueleto; sua mão parecia necrosada. Isso tudo aconteceu em questão de segundos, o tempo que levou para o restante do grupo puxar o jovem desesperadamente para longe da porta. Caído de costas no chão, Lael voltou gradualmente à sua aparência normal, mas ainda sentia-se fraco e tonto demais para falar ou se erguer. Draenis começou a cuidar dele, enquanto os outros ponderavam.
            - Eu alertei que haveria maldições. – comentou Azmuth – Até agora estávamos na zona de circulação dos homens-lagarto, mas parece que daqui pra frente é a parte importante da torre.
            - O que importa é: Você consegue quebrar a maldição? – perguntou Liana.
            - Talvez. – respondeu o mago, dando de ombros – Mesmo que eu consiga, vai levar um tempo.
            - Então comece logo. – ordenou o líder.

            Azmuth desenhou um semicírculo em frente à porta com um pó retirado de sua mochila, acendeu três chamas azuis com um óleo especial e agora estava de pé fora do semicírculo, murmurando no Idioma Místico e acenando com o cetro. Lael, ainda deitado, era curado pelas bênçãos de Draenis; Jim e Liana sentaram-se lado a lado, mirando a escuridão ao redor. O guerreiro fez menção de puxar assunto – não conversavam direito desde o segundo dia de viagem pela floresta – mas foi bruscamente interrompido pela ranger, que gesticulou para que ele se calasse.
            - Ouviu isso? – perguntou ela, aguçando os ouvidos.
            - O que exatamente? – perguntou ele, em um tom gelado. Odiava ser interrompido.
            A ranger não respondeu, apenas continuou em silêncio, tentando captar algo. Depois de alguns segundos, levantou-se de um salto e se atirou na direção de Azmuth, exclamando:
            - Cuidado!
            Uma fera saltou da escuridão na direção do mago, acertando, ao invés de seu alvo original, a ranger, que foi arremessada ao chão. A criatura lembrava um cão sem cauda, com pescoço quase inexistente, uma cabeça larga e pesada e um focinho curto. Era grande como um pônei e muito mais musculoso, especialmente na parte da frente, e suas costas eram curvadas. Sua bocarra era capaz de arrancar um braço de uma pessoa, mas mais do que isso: a criatura não estava sozinha. Outras se aproximavam por todos os lados, ao menos cinco outras.
            - Armas! Armas! – Jim deu o comando, puxando suas espadas. Liana fez o mesmo e Draenis despejou sobre eles suas bênçãos, mas Lael ainda estava fraco demais para luta e Azmuth tinha que se manter concentrado no ritual, caso contrário este não funcionaria.
            O combate foi feroz. O couro das criaturas era muito grosso, e resistia mesmo aos cortes mais poderosos das lâminas de Jim e Liana. O guerreiro conseguiu matar uma das criaturas cravando a espada longa por dentro de sua bocarra, mas isso o fez baixar a guarda. Com a guarda baixa, levou uma mordida de outra criatura na lateral esquerda de seu corpo. As presas não eram afiadas o suficiente pra penetrar a cota de malha, mas a pressão foi o suficiente para quebrar três costelas do guerreiro, que, sem conseguir respirar, foi salvo por um virote que se cravou fundo através do olho da fera. Lael, ainda fraco demais para ficar em pé, atirava com sua besta leve.  
            Lutando para respirar e se manter em pé, Jim mudou de estratégia. Incapazes de matar as criaturas sem se arriscar demais, ele e Liana passaram a apenas desferir cortes giratórios com suas lâminas, procurando manter as criaturas afastadas tempo o suficiente para Azmuth terminar seu trabalho. Lael ajudava com seus tiros de besta.
            Essa situação não chegou a durar três minutos, mas pareceu se arrastar por horas. A cada segundo que passava, o ferimento de Jim doía mais e sua consciência ia lentamente desvanecendo. Os braços de Liana já estavam tão cansados de movimentar as espadas sem parar que mal obedeciam. O grupo dificilmente conseguiria resistir se surgisse alguma outra ameaça do outro lado da porta.
            Finalmente, uma rachadura se abriu com um estrondo sobre a superfície do portão de ferro, revelando que Azmuth havia conseguido quebrar a maldição. O mago empurrou as portas, revelando uma pequena sala que terminava em uma escada para o andar inferior. Todo o grupo atravessou a porta correndo, o líder por último, e um frasco de óleo flamejante arremessado por Lael manteve as bestas afastadas tempo o suficiente para que os aventureiros fechassem a porta e a bloqueassem pelo lado de dentro. As criaturas se chocavam contra o portão fechado, mas nem mesmo toda a sua força era capaz contra uma camada tão espessa de ferro.
            Antes de descer as escadas, o grupo parou para descansar. Draenis curou todos os ferimentos da melhor maneira que pôde (considerando o nível de cansaço em que ela própria se encontrava), todos se alimentaram, beberam um chá preparado por Liana (que aplacou as dores e devolveu-lhes parte do vigor) e ouviram mais uma das canções encorajadoras de Lael. Descansaram por mais de meia-hora, mas o nervosismo apenas crescia: Por que nada ou ninguém os havia atacado ainda? Descansados o suficiente pra prosseguir, os aventureiros finalmente desceram as escadas. Só queriam terminar aquilo o mais rapidamente possível.

            O andar debaixo era, indiscutivelmente, uma grande biblioteca. O chão era forrado por tapetes, entre fileiras e mais fileiras de estantes contendo milhares de livros. Ao contrário dos andares anteriores, este não estava completamente escuro. Globos de luz mágica presos a intervalos regulares nas paredes e estantes lançavam uma iluminação branca e artificial. Mas o lugar estava vazio, completamente vazio, e igualmente silencioso. Alguns livros largados no chão ou sobre as mesas de leitura passavam a impressão de que o lugar havia sido abandonado às pressas.
            - Será que devemos procurar aqui o livro que Saltus quer? – perguntou Lael, olhando as estantes em volta.
            - Duvido muito. – respondeu Azmuth – Livros importantes dificilmente são largados de qualquer maneira, desprotegidos. Além do mais, levaríamos anos pra vasculhar essa biblioteca inteira.
            Mais adiante, onde parecia ser o centro da torre, quatro corredores de estantes se encontravam, e havia, neste cruzamento, um espaço circular de cerca de quatro metros de diâmetro, aberto como uma clareira. O chão de pedra branca neste círculo era levemente mais baixo que ao redor, e erguia-se no centro dele um pedestal de ouro. Sobre o pedestal, um domo de vidro.
            Os aventureiros se aproximaram. Ao chegar perto o suficiente, notaram que o domo não estava perfeitamente encaixado, e sobre o pedestal se encontrava um suporte para um livro pequeno. Vazio.
            - Isso responde à sua pergunta anterior, meu caro bardo? – perguntou Azmuth, irônico – Me parece bastante óbvio que o livro esteve aqui.
            - Mas foi pego... – completou Lael – Talvez nem esteja mais na torre.
            - Ele está na torre, tenho certeza. – respondeu Jim – Caso contrário, a torre estaria abandonada.
            - Ela parece abandonada o suficiente para mim. – comentou Draenis, olhando em volta – Talvez os homens-lagarto só estejam ocupando os andares superiores por vontade própria.
            - E estocando cadáveres? – perguntou Liana – Homens-lagarto não fazem isso naturalmente.
            - Se quem encontrou o livro tivesse realmente abandonado a torre, por que se dar ao trabalho de refazer a maldição do portão e de deixar bichinhos de guarda? – indagou o líder, astutamente - Aquelas bestas não me pareceram muito naturais.
            - Imagino que elas foram magicamente engendradas, pelo mesmo necromante que criou aqueles mortos-vivos do pântano. – comentou o mago – Você acha que o necromante deve ainda estar por aqui?
            - Sim. – respondeu Jim – E vamos encontrá-lo.

            Apesar de grande, a biblioteca era bastante organizada, portanto não foi difícil encontrar o caminho para o próximo andar. Esperando um perigo cada vez mais iminente, os aventureiros desceram em posição de combate: Jim (o mais resistente) na frente, seguido de perto por Liana; Azmuth (menos apto a combate corpo-a-corpo) no centro; Draenis logo atrás (perto o suficiente para dar suporte a todos) e Lael fechando a fila, seus sentidos apurados o suficiente para evitar qualquer ataque-surpresa por trás.
            O andar debaixo era, provavelmente, o mais esquisito de todos. Ao invés de paredes de pedra, seus cômodos e corredores eram divididos por paredes grossas de vidro, sustentadas por armações de ferro. O interior desses cômodos era ainda mais bizarro. Eram preenchidos por armários de vidro e mesas ou bancadas de pedra ou ferro. Algumas possuíam sobre elas cadáveres abertos ou semi desmontados; outras possuíam livros, frascos de vidro contendo substancias coloridas ou instrumentos metálicos em variados tamanhos e formas. Sobre algumas das paredes de vidros havia anotações e diagramas. Assim como na biblioteca, o lugar parecia ter acabado de ser abandonado às pressas; tudo estava incompleto e fora de ordem.
            - Isso é um laboratório arcano, com toda a certeza do mundo. – constatou Azmuth – Não só um laboratório arcano, um laboratório de necromancia, a julgar pelos cadáveres. Estávamos certos em relação ao necromante.
            - E foi abandonado às pressas. – acrescentou Jim – Consegue identificar o que exatamente estavam fazendo aqui?
            - Não sem examinar com calma. – respondeu o mago – Mas duas coisas são certas. Primeiro que, aparentemente, havia algumas dezenas de pessoas trabalhando aqui ao mesmo tempo. Segundo que nem tudo foi deixado para trás. Alguns dos armários de registros e de substâncias foram abertos e esvaziados, e o conteúdo não está no chão.
            - Estão vendo aquilo? – interrompeu Lael, apontando bem longe, para o fundo do corredor escuro.
            - Lael, quantas vezes tenho que repetir que não enxergamos tão bem quanto você? – perguntou o guerreiro – O que exatamente deveríamos ver?
            - Uma luz. – Liana respondeu por ele – Tem uma luz bem fraca do outro lado da torre.
            - Certo, agora é hora de seriedade. – ordenou Jim – Mantenham a formação de combate, agucem seus sentidos ao máximo e preparem-se: pode ser uma armadilha. Mas nós vamos direto para aquela luz. 

            A luz vinha de um dos cômodos de vidro, o maior deles. O lugar estava iluminado artificialmente por dentro, parecendo um aquário, e apenas quando chegaram perto os aventureiros puderam constatar que ele não estava vazio como o resto do andar. Havia um homem atrás de uma mesa, sobre a qual estava depositado um cadáver aberto e semi desmembrado.
            O homem era muito alto e magro; vestia mantos ricos e negros, que combinavam com seus cabelos também negros e compridos e contrastavam violentamente com sua pele branca como mármore. Seus olhos pequenos e sublinhados por densas olheiras encaravam os aventureiros sem piscar. Quando percebeu que foi avistado, baixou a cabeça e voltou calmamente para seu trabalho com o cadáver.   
            O grupo hesitou. Havia algo de assustador na calma com a qual o homem misterioso os aguardava, mas eles não haviam chegado até ali para dar meia volta e fugir. Todos eram ao menos razoavelmente experientes em combate, e desde o início esperavam ter que enfrentar algo do tipo. A confiança extrema de seu inimigo os abalava, mas ainda assim rumaram diretamente até o aquário de vidro e, encabeçados por seu líder, entraram.
            - Demoraram mais que o esperado para chegar até aqui. – comentou o homem de preto, sem levantar a cabeça ou parar seu trabalho. Sua fala era muito bem articulada, apesar de um sotaque peculiar e carregado.
            - Não sabia que estávamos sendo esperados. – respondeu Jim, duro. Odiava aquelas conversas pré-luta – Muito menos que havia um prazo.
            - Ah, mas havia um prazo, não havia? Como pode ver, - o homem acenou com a mão para o resto do andar, ainda sem erguer a cabeça – meus ajudantes já levaram embora todos os registros das pesquisas. Não há mais nada para espionarem aqui.
            - Certo. – respondeu o guerreiro, confuso – Como sabia que estávamos vindo?
            - Depois de todo aquele estardalhaço que fizeram nos andares superiores? – o necromante deu uma risadinha – Creio que a verdadeira questão seja: como descobriram meu novo laboratório tão rapidamente? – o homem finalmente ergueu a cabeça – Talvez eu os force a falar, antes de matá-los.
            A porta do cômodo se fechou repentinamente atrás de Lael. O ladino tentou abri-la ou quebrar o vidro, mas falhou em ambas as tentativas. Estavam presos com o necromante.
            - O que o faz pensar que conseguirá nos matar tão facilmente, necromante? – perguntou Jim agressivamente, reassumindo postura de combate e se preparando para atacar.
            - Esqueceram-se que eu matei todos os outros dentre vocês que ousaram me enfrentar? – o homem tinha um tom irônico.
            Os aventureiros não foram rápidos o suficiente em esconder sua confusão, e o necromante percebeu.
            - Nem ao menos sabem quem eu sou, sabem? – parecia se divertir com a situação – Nem ao menos sabem do que estou falando, sabem? São apenas um grupinho desprezível de... rastejadores, que me esbarraram em minhas pesquisas por acaso! – deu uma risada sem calor - Esse foi o maior azar de suas vidas.
              - Não o encontramos por acaso. – interveio Lael – Saltus nos enviou aqui.       
            - Enviou, foi? E ele explicou o motivo? Avisou onde estavam se metendo? Quem estariam enfrentando?
            - A única coisa que preciso saber é que vou arrancar sua cabeça e cravá-la em uma estaca, verme desprezível! – exclamou Jim, dando um passo a frente – Chega de conversa, vim aqui para lutar!
            - Péssima escolha...
            Com um aceno do necromante, uma dúzia de instrumentos metálicos afiados foi arremessada sobre os aventureiros, e a luta começou. Dois instrumentos cravaram-se em Jim e um em Draenis, enquanto os demais ricochetearam nas paredes de vidro. O guerreiro os ignorou e saltou sobre seu inimigo, mas foi arremessado para trás por uma pequena explosão de energia negra conjurada pelo necromante. Draenis invocou uma prece e as lâminas de Jim e Liana brilharam, santificadas; Lael começou a cantar para inspirar seus companheiros, enquanto disparava virotes com sua besta.
            Azmuth disparou dois projéteis de energia arcana contra o necromante, mas este os parou apenas com a mão esquerda, enquanto acenava com a direita, fazendo dois cadáveres que estavam mais ao fundo da sala se levantarem. Os mortos-vivos eram muito diferentes do comum: tinham quase três metros de altura, músculos inchados e partes do corpo substituídas por próteses de ferro. Investiram imediatamente contra os aventureiros, causando uma destruição considerável no ambiente confinado. Um deles brandia uma mesa como arma.
            Jim e Liana juntos deram combate a um dos zumbis, enquanto o outro era segurado à distância por uma magia de Azmuth. Depois de cravar as duas espadas nos joelhos do morto-vivo, o guerreiro conseguiu, com muito esforço, jogá-lo ao chão. Foi agarrado pela criatura, mas foi salvo por Liana de ser lentamente quebrado ao meio; a ranger subiu nas costas do monstro e matou-a com sucessivas estocadas no pescoço.
            Uma maldição lançada pelo necromante arremessou Azmuth ao chão, cego, surdo e afogado em dor. Draenis correu para ele e conseguiu desfazer a maldição, mas era tarde: foi arremessada por um golpe do segundo morto-vivo, agora livre da imobilização imposta pelo mago. A criatura já tinha vários virotes de besta cravados inutilmente em seu corpo, mas Lael continuou atirando. Percebendo os ataques, o zumbi arremessou a mesa de ferro que carregava. O ladino tentou desviar, mas tropeçou e foi atingido em cheio, e acabou soterrado pela mesa e um armário. Apenas sua bota era visível sob os escombros.
            Azmuth, recuperado, começou a trocar raios e feitiços com o necromante, mantendo-o ocupado enquanto Jim e Liana partiam para cima do segundo zumbi. O brilho sagrado nas lâminas curtas de Liana causava dor na criatura, enquanto a ranger esquivava habilmente de todos os golpes e atacava de todos os lados, mantendo a criatura girando confusa. Percebendo uma oportunidade, Jim tomou impulso com uma breve corrida e chutou o morto-vivo com as duas pernas, fazendo-o desequilibrar-se para trás e quicar na parede de vidro indestrutível.
            A criatura então atacou o guerreiro, mas este passou por baixo de seu braço, cravou a espada longa em seu ombro e a usou de apoio pra subir em suas costas largas. Antes que o morto-vivo pudesse arrancá-lo dali, Jim agarrou seu pescoço e cravou a espada curta em seu olho esquerdo. Urrando de dor, o mostro começou a se sacudir violentamente, arremessando ao ar a mesa sobre a qual o necromante trabalhava mais cedo e espalhando vísceras por todo o ambiente. Mas o guerreiro, persistente, não soltou. Ao invés disso enrolou suas pernas ao redor do pescoço da criatura, pegou de volta a espada longa e usou-a para estocar a cabeça do monstro. O crânio era coberto por uma placa de ferro, mas Jim continuou batendo. Primeiro a placa amassou, depois começou a se romper, até que, por fim, a espada perfurou o cérebro da criatura com um barulho molhado. O corpo gigante tombou e Jim foi amparado por Liana.
            Azmuth jazia desacordado junto à parede, um filete de sangue escorrendo de cada narina. O necromante havia conseguido dominá-lo, e agora olhava para o que restava do grupo. Soltou uma risada de gelar os ossos. Jimhold estava parado com um dos joelhos no chão, sangrando horrivelmente. Era amparado por Liana, tão exausta e ferida que parecia prestes a desmaiar. Draenis e Azmuth estavam desmaiados (senão pior), e de Lael só era visível a bota esquerda.
            - Admito que foram bastante persistentes, aventureiros, mas tudo terminou como eu havia previsto. – o necromante começou seu pequeno discurso de vilão, com um ar de superioridade – Quase sinto pena de vocês. Morrerão sem nem ao menos saber o porquê. Manipulados por alguém mais astuto e derrotados por alguém mais poderoso...
            O pequeno discurso foi interrompido por Lael, que (com um pé descalço) saltou das sombras e agarrou o vilão por trás. Depois de três segundos de luta afobada, foi arremessado para além do guerreiro e da ranger por uma magia. Caiu rolando e tornou a se erguer.
            - Um pequeno inconveniente, mas isso não muda nada. – disse o necromante, enquanto ajeitava suas vestes sinceramente irritado – Eu vou torturá-los, matá-los e usar seus corpos em minhas experiênc...
            O próprio necromante interrompeu sua frase, com uma expressão de surpresa. Apalpava suas vestes freneticamente, procurando algo que não estava mais ali.
            - Procurando alguma coisa? – perguntou Lael, sorrindo ironicamente.   Em suas mãos, um livro pequeno de capa e páginas negras, sem título. Sob o livro, uma tocha acesa. O necromante agora tinha uma expressão contorcida que misturava pânico e ódio. O Livro, o objeto vital para a conclusão de seus planos, tão perto de ser destruído.
            O vilão não deu ao ladino a chance de se gabar mais uma vez; deixando atrás de si uma nuvem negra, passou como um relâmpago entre Jim e Liana e agarrou Lael pelo pescoço. Com seus dedos magros e compridos ao redor da garganta do ladino, recuperou o livro e se sentiu aliviado. Essa havia passado perto. Mas ainda não havia acabado.
            Jimhold, lutando contra toda a dor e o cansaço, girou a espada longa contra a lateral do inimigo, que foi pego de surpresa. A proteção arcana desacelerou a espada, mas ela ainda foi capaz de cravar-se como um machado entre as costelas do necromante. Sangrando em profusão, este se afastou, levando uma das mãos ao ferimento. Tentou lançar uma maldição contra o guerreiro, mas não tinha fôlego para pronunciar as palavras, tampouco conseguia acenar corretamente com a mão. Desistindo, desapareceu em um giro da capa, deixando para trás apenas sangue e uma nuvem negra. Havia ido embora.
                 
Final da Aventura

            Não há muito que ser dito sobre o resto da aventura. Liana despertou Draenis com uma infusão de ervas e a clériga curou os demais. Todos saíram de lá andando com as próprias pernas, ainda que feridos, cansados e abalados. Antes de sair, terminaram de explorar a torre. O andar logo abaixo continha os aposentos do necromante e de seus discípulos, porém estava deserto e a maior parte dos bens de valor já havia sido levada.
            O último andar parecia uma mistura de porão com salão de culto, cheio de poeira, estátuas e objetos incomuns. Em posição de destaque, os aventureiros encontraram um grande sarcófago negro sem inscrições, cercado por elementos mágicos e de culto. Por mais que tentassem, não conseguiram abri-lo ou move-lo um centímetro sequer. Por fim, decidiram deixá-lo onde estava mesmo...
           
            Liana foi banida de sua vila quando os Anciões descobriram que ela desobedeceu às regras, mas nem ela mesma deu muita importância a isso. Apesar de não confiar muito no “povo da cidade”, ela havia decidido continuar com o grupo. Sempre quisera viajar o mundo, conhecendo outras paisagens criadas pela mão de Danna.

            Desprovidos de seu mestre e um propósito, os homens-lagarto se dispersaram novamente e boa parte retornou às montanhas. Jim recebeu o resto da recompensa de Saltus, mas não perguntou nada a respeito do que o necromante havia revelado. Não confiava no mago, de qualquer maneira, e tinha certeza de que não receberia uma resposta honesta. O guerreiro até considerou procurar toda a verdade sobre a situação, mas isso teria que esperar. No momento, o que todos realmente precisavam era de um merecido descanso...

FIM.
Mas continua...

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