sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Aventura #2 - Fuga desesperada


Dia zero (quinta-feira) – Fim de tarde – Cidade de Avisle

            O dia lentamente se transformava em uma típica noite de verão; o calor solar era suavemente varrido das ruas e construções de pedra por uma brisa fresca vinda do norte. A maior parte dos comerciantes ocupava-se em fechar suas lojas ou desmontar suas barracas de feira, muitos cidadãos voltavam caminhando para suas casas e o porto se enchia de tipos noturnos suspeitos. A milícia da cidade patrulhava algumas das ruas. Dois simples passantes conversavam:
            - Ouviu a novidade?
            - Qual delas?
            - Um nobre poderoso foi assassinado. Por um plebeu!
            - Por Lucernus, quem seria estúpido a ponto de fazer isso?!
            - Aposto uma moeda de bronze que o culpado será enforcado em menos de uma semana! Ninguém mexe com essa gente e sai impune.
            Coincidentemente, a apenas alguns passos dos cidadãos anônimos, em uma casa simples e quadrada, descansava um grupo de aventureiros que, para fins de coesão e comunicação, haviam decidido morar juntos. Dividiam uma moradia de quatro quartos, cada um decorado de acordo com o gosto de seu dono. O de Jimhold parecia um ginásio de treino com armas penduradas nas paredes; o de Azmuth era uma mistura de biblioteca com laboratório arcano; o de Draenis parecia um pequeno templo a Kunst, com um altar incluso, e o de Lael era repleto de instrumentos musicais e aparatos mecânicos. Liana, sendo novata, não possuía um quarto próprio.
            A noite em questão foi apenas alguns dias após a aventura anterior na torre do pântano, e apenas Lael não estava no quartel general do grupo. O bardo tivera a idéia de sair para caminhar na zona rica da cidade, buscando inspiração para uma nova canção. Repentinamente, o som de batidas leves e apressadas na porta ecoou pelo ambiente. Jim demorou a atender, e o visitante continuou batendo na porta freneticamente, sem parar por sequer um segundo.


            Quem batia à porta era um conhecido do grupo, um simples moleque da cidade. Sem rodeios, foi logo entregando nas mãos do guerreiro um bilhete fechado.
            - Lael me pediu para entregar isso a você urgentemente. – explicou o rapaz, ofegando – Ele está com problemas! – saiu correndo logo em seguida.
            Jim fechou a porta e abriu o bilhete. Era curto, escrito às pressas e certamente tinha a caligrafia do bardo. Lia-se, em letras garrafais: “ME ACUSARAM DE MATAR UM NOBRE. ESTOU ESCONDIDO. A MILÍCIA VAI ATRÁS DE VOCÊS. FUJAM DAÍ.”
            O guerreiro parou um minuto, com o bilhete na mão. “O que diabos está acontecendo?” A notícia podia muito bem ser falsa, mas aventureiros são conhecidos por serem especialmente precavidos. Por isso, Jim chamou o resto do grupo e mostrou-lhes a mensagem sem demora.
            - Escondam os tesouros no porão secreto e peguem o que for possível de viagem. – ordenou o líder – Vamos sair dessa casa por um tempo, ao menos até encontrar o Lael e tirar essa história a limpo.
            Os aventureiros esconderam seus bens mais preciosos e sua pequena reserva de dinheiro no porão secreto (a maior parte disso tudo já era guardada nesse lugar naturalmente) e pegaram suas armas, armaduras e mochilas com suprimentos básicos. Contudo, ouviram, antes que pudessem sair, novas batidas na porta, dessa vez muito mais violentas.
            - Saiam em nome do Tribunal e Conselho da Cidade de Avisle! – uma voz grave se seguiu às batidas – Vocês são acusados de compactuar com um perigoso assassino, e temos ordens para prendê-los e interrogá-los.
            Os aventureiros pararam, de frente para a porta.
            - Saquem suas armas. – ordenou Jim – Mas não se afobem. Vamos fugir na primeira oportunidade, despistá-los e então procurar nosso ladino.
            - Isso sempre acontece com vocês? – perguntou Liana.
            - Pra falar a verdade, é a primeira vez. – respondeu o guerreiro.
            Nesse momento, a porta foi derrubada. Antes que os soldados pudessem entrar, Jim atirou seu corpo através do portal, pegando-os desprevenidos e forçando-os a recuar. O grupo seguiu na sua cola. Oito guardas da milícia os cercavam do lado de fora, vestindo armaduras e túnicas idênticas e portando lanças e espadas. Jim e Liana combateram furiosamente por alguns segundos, procurando mantê-los afastados por tempo o suficiente para criar uma oportunidade de fuga. Assim que uma brecha no cerco foi aberta, o grupo inteiro passou por ela, disparando pelas ruas vazias e mal iluminadas. Teve início uma perseguição.
            Jim e, principalmente, Liana, poderiam ter despistado os perseguidores facilmente, apressando o passo e passando por lugares menos acessíveis. Mas Draenis não era tão atlética quanto os dois, e Azmuth deixava a desejar até mesmo em comparação a um não aventureiro. O mago fumava, e ficou sem fôlego em menos de cinco minutos de corrida.
            O líder guiava-os através de um labirinto de becos e vielas estreitas e mal iluminadas, tentando confundir os guardas, já que não conseguiriam correr mais que eles. Não havia perigo dos aventureiros se perderem, pois Jim havia sido criado correndo por aqueles becos labirínticos e conhecia cada esquina como a palma de sua mão. Liana, fechando a fila, tentava bloquear o caminho derrubando lixo e entulhos atrás de si, e disparava com sua besta a intervalos regulares. Por fim, depois de extenuantes quinze minutos de perseguição, sentiram-se seguros o suficiente para parar.
            Jogaram as mochilas e demais equipamentos no chão e sentaram-se nos degraus da porta dos fundos de uma mercearia, arfando ruidosamente. Azmuth deitou-se completamente e fechou os olhos, pálido e encharcado de suor. Apenas depois de uns bons minutos de descanso, tiveram fôlego para conversar.
            - Agora que conseguimos despistá-los, precisamos encontrar o Lael, pra entendermos o que está acontecendo. – começou o líder – Alguém tem alguma idéia de como fazer isso?
            - Nenhuma. – respondeu Azmuth – O garoto se esconde muito bem.
            - Me sinto tão perdida nesta cidade quanto vocês no meio da floresta. – acrescentou Liana.
            - Não temos como encontrar o Lael. – observou Draenis – Mas ele certamente conseguiria nos encontrar.
            - Como assim? – perguntou o mago.
            - Bem... – a clériga estava um pouco encabulada por ter se tornado o centro das atenções – Se tem um lugar onde é mais fácil se esconder da milícia à noite é a zona portuária. Vamos rondar por lá, e esperar que o Lael nos ache.
            - Não vamos chamar muita atenção, andando com esse equipamento todo em um lugar movimentado? – perguntou Liana, erguendo uma sobrancelha.
            - Não na zona portuária. – respondeu Jim - Muitos aventureiros circulam por lá.
            O líder refletiu por um minuto, olhando para o chão, o queixo apoiado na mão e mordendo o dedo indicador. Depois de tomar sua decisão, apontou para a clériga e disse:
            - Você tem razão, isso é o melhor que podemos fazer agora. Para o porto, então.

Dia um (sexta-feira) – Madrugada – Zona portuária de Avisle

            Em qualquer cidade costeira, a zona portuária é a região mais movimentada durante a noite, e Avisle não era diferente. A rua principal contornava o porto, e os becos e vielas perpendiculares concentravam uma enorme quantidade de tavernas, estalagens baratas, prostíbulos e casas de apostas. Em noites de verão, como era o caso, as festanças despropositafas se estendiam para fora dos estabelecimentos, de forma que as ruas ficavam inundadas de bêbados, marinheiros, artesãos, prostitutas e batedores de carteira.
            Mesmo armados e equipados, o grupo não chamou muita atenção; aventureiros de passagem eram comuns por ali, além de mercenários que os donos de tavernas e bordéis contratavam para proteger seus estabelecimentos. Quando baixava o sol, a zona portuária tinha suas próprias leis, e se tornava independente do resto da cidade.
            Os aventureiros circularam de rua em rua, de bar em bar, mas não encontraram o ladino desaparecido. A madrugada se aproximava do fim, e as ruas ficavam mais silenciosas à medida que os bêbados caíam no sono. Estavam prestes a desistir, quando Jim avistou alguém conhecido.
            - Esperem aqui. – sussurrou o guerreiro, enquanto rumava em direção a uma figura solitária encostada na parede de um beco, fumando um cachimbo curto.
            O estranho estava vestido de forma suspeita: uma capa pesada e escura cobria-lhe todo o corpo e um capuz ocultava seu rosto. A mão que segurava o cachimbo era magra e comprida, os dedos repletos de anéis.
            - Boa noite, Malek. – Jim puxou assunto – Há quanto tempo...
            - Muito tempo mesmo. – respondeu o estranho, com um incomum sotaque assoviado.
            - Sabe meu amigo Lael? Um rapaz branquelo de mão leve. – continuou o guerreiro, indo direto ao ponto e mostrando cinco moedas de prata – Eu gostaria de saber onde ele se meteu, e tenho certeza de que você pode me ajudar com isso.
            - Eu ouvi algo a respeito. – respondeu o informante, irônico – Mas o paradeiro dele acabou de me fugir à cabeça, veja você...
            - Tenho certeza de que conseguirá se lembrar. – Jim guardou as moedas de prata e puxou uma de ouro.       
            O informante pegou a moeda, examinou por alguns segundos e guardou dentro da manga com um gesto exagerado. Por fim, respondeu:
            - Lael foi preso, acusado de matar um nobre. Um tal Lorde Keller. Será enforcado daqui a pouco mais de um dia. Sábado de manhã, na praça principal.
            - Mas não foi ele quem realmente matou o tal lorde, foi? – perguntou o guerreiro, puxando mais uma moeda de ouro da sacola de couro.
            - Me diga você... – respondeu o informante, depois de mirar a moeda por alguns segundos.
            - Eu insisto. – Jim acrescentou mais duas moedas de ouro – Tenho certeza de que você sabe alguma coisa de útil.
            O informante aceitou o dinheiro.
            - Lorde Keller estava no ramo do comércio com outros reinos. Controlava três estaleiros e cinco navios nesse porto; enviava vinho e ouro para o norte e recebia lã. Foi assassinado no próprio escritório, durante uma reunião de negócios com outro nobre e também proprietário comercial, Lorde Vektem. Coincidentemente, - Malek deu ênfase nesta palavra - foi assassinado logo após vender seus navios e estaleiros ao concorrente, por um preço muito abaixo do que valiam. Lorde Vektem, a única testemunha, identificou Lael e o acusou pelo assassinato.
            - Obrigado, Malek. Sempre muito esclarecedor. - Jim voltou para junto de seus companheiros.
            - É bom ser útil, Jim. É bom ser útil...
           
            - Isso é ridículo! – exclamou Draenis, alterada, quando Jim compartilhou as informações com o resto do grupo – É óbvio que o tal lorde Vektem forçou o outro a vender os navios, e depois o matou! Nosso Lael não passa de um bode expiatório!
            - Infelizmente, a palavra de um nobre vale muito mais que a nossa. – respondeu Azmuth.
            - Vocês da cidade dividem as pessoas de forma tão estúpida. – comentou Liana – E ainda se dizem mais evoluídos que meu povo.
            - Não temos escolha. – disse Jimhold – Vamos dar um jeito de libertar nosso amigo.

Dia um (sexta feira) – Madrugada – Prisão da cidade de Avisle

            O bardo (ou ladino) estava deitado no chão de pedra imunda no fundo de sua cela. Um rato roía a barra de suas calças, mas ele não tinha mais forças para tentar expulsá-lo. Fora capturado, espancado, revistado e jogado ali, sem refeição. Sua garganta estava seca de tanto gritar que era inocente. Seu espírito, tão quebrado quanto seu corpo, Lael apenas esperava. Sua única esperança era que seus companheiros viessem salvá-lo, pois ele não tinha condições de escapar por conta própria.
            Os passos de três pessoas ecoaram pelo corredor de pedra. A porta de ferro da cela de Lael se abriu, deixando entrar dois carcereiros e um terceiro homem, que acenou para que os guardas saíssem e fechassem a porta. O homem destoava violentamente do ambiente; estava vestido luxuosamente, como um nobre, e carregava uma bengala de madeira negra com enfeites de ouro. Era jovem e não precisava de apoio para andar, mas era comum entre a nobreza citadina portar bengalas como forma de distinção social.
            - Boa noite, jovem bardo. – cumprimentou o homem, com uma voz leve e dissimulada – Espero que o tenham tratado exatamente como instruí.
            - Por que me prenderam aqui? – Lael conseguiu balbuciar – O que eu fiz?
            - Ora, não se lembra? – perguntou o nobre, levemente surpreso – Parece que é mentira o que dizem, que um golpista sempre se lembra de suas vítimas. OLHE PARA MIM! – exclamou, cutucando o ladino caído com a ponta da bengala.
            Lael mirou-o por algum tempo, incapaz de raciocinar direito. Por fim, sua mente exausta cooperou e ele se recordou.
            - Eu conheço você. – balbuciou – Você é um nobre em quem eu apliquei um golpe uma vez...
            - Ah, ele se lembrou, mas que gentileza. – respondeu o nobre sarcasticamente – Agora já sabe por que escolhi você. Assim é melhor, odiaria que fosse enforcado sem saber o motivo.
            - Mas isso foi há tanto tempo. E eu não te roubei mais do que três moedas de ouro. – Lael implorou – Me deixe ir, eu posso pagar!
            - Não seja ridículo! – retrucou o nobre, ficando imediatamente sério – Eu sou rico, posso nadar em ouro se quiser. Isso não é pelo ouro, é pela humilhação que me fez passar. Lorde Vektem jamais será enganado de novo. Especialmente por um plebeu!     
            E, com essas palavras, bateu na porta da cela com sua bengala. A porta foi aberta pelos carcereiros e o lorde se retirou, gargalhando por dentro.

Dia um (sexta-feira) – Por volta do meio dia – Prisão de Avisle

            A prisão era um prédio simples e quadrado de pedra cinzenta, com dezenas de pequenas janelas com barras de ferro em sua superfície. Ficava localizado em uma curva do litoral, de forma que duas de suas quatro laterais davam diretamente para as rochas e o mar.
            Em uma das celas, Lael observava o céu através das grades da janela. Sua pouca esperança diminuía ainda mais com a espera. “Por que meus amigos não vieram me buscar ainda?” pensava.
            Como que respondendo à sua pergunta, uma chave girou na fechadura da porta, e um carcereiro entrou. O homem tirou o elmo e revelou sua face: era Jimhold.
            - Jim! – Lael tentou exclamar, mas sua voz saiu fraca e rouca – Finalmente você veio me resgatar, já estava começando a pensar que tinham me abandonado ou sido capturados também.
            - Não estou aqui para te libertar ainda, meu amigo. – respondeu o líder, sério.
            - Como assim? – o ladino parecia sem chão – Por que não?
            - Foi fácil entrar aqui disfarçado, com uma ajudinha dos poderes de Azmuth. – esclareceu Jim – Mas os guardas estão todos nas ruas, e seria impossível escapar durante o dia.
            - Por que veio aqui então? – perguntou Lael, desiludido – Pra dizer que não tem como me ajudar, e que é melhor eu me virar sozinho?
            - Nada disso, amigo. – o líder compreendia a situação do ladino – Vim pra encontrar você, e te avisar que vamos resgatá-lo essa noite. Além do mais, não custava nada trazer isso. – entregou a Lael uma vasilha de comida, que ele devorou vorazmente.        
            - Obrigado, Jim. – falou Lael, emocionado – Eu não valho todo esse risco que vocês estão correndo.
            - Quantas vezes eu tenho que repetir? Não deixo nenhum amigo para trás...

            Jimhold saía apressadamente da prisão, o elmo novamente cobrindo o rosto, quando ouviu uma voz vagamente familiar falando sozinha. A voz vinha de dentro de uma das selas, e o guerreiro espiou através da portinhola com grades, tentando localizar seu dono.
            - Ora, Dalariok, você por aqui? – perguntou sorrindo, enquanto abria a porta.
            O prisioneiro o encarou com seus olhos esbugalhados. Era um jovem adulto de estatura mediana, sentado no chão com a coluna curvada. Seu nariz grande e adunco apresentava um corte feio, e seu queixo era coberto com uma barba curta, parecida com a de um bode.
            - Jim?! – se surpreendeu o prisioneiro – Você?! O que diabos você ta fazendo aqui?
            - O que você acha? – riu o guerreiro.
            - Pelo que eu te conheço, diria que está fugindo daqui, ou ajudando outra pessoa a fugir. Ei, me leva junto, prometo que não vou atrapalhar.
            - Não estou ajudando ninguém a fugir no momento, Dalariok.
            - Mas vai fazer isso, não vai? Quando? Espero que seja logo, vão me enforcar amanhã de manhã...
            - Você já escapou de situações piores.
            - Não dessa vez. Dessa vez eu estou realmente ferrado.
            - Por quê? – perguntou Jim – O que você fez dessa vez pra ser preso e condenado à forca?
            - Nada! – exclamou o prisioneiro.
            Jim franziu a testa para ele, sem acreditar.
            - Eu voltei pra essa cidade a trabalho, tava ganhando dinheiro como mercenário. Nada de ilegal.
            - Tem que ter algum motivo para terem te prendido...
            - Se lembra do Taviz?
            - Allber Taviz, o tenente que nos odiava? O que tem ele? – agora Jim estava realmente curioso.
            - Ele foi promovido, agora é comandante da milícia da cidade, não é? Não faz nem três dias...
            - Eu estava fora. – respondeu Jim – Mas então, ele te prendeu?
            - Exatamente. Bastardo! Assim que descobriu que eu tinha voltado à cidade, deu um jeito de me encontrar e condenar à forca por uma bobagem qualquer. E ele vai dar um jeito de colocar sua cabeça a prêmio também.
            - Ele não vai precisar se dar ao trabalho...
            - Mas então, você vai me soltar, não vai? Pelos velhos tempos...
            - Talvez, Dalariok, talvez. – respondeu o guerreiro – Você ficará sabendo.
Dia um (sexta-feira) – Próximo à meia-noite – Prisão de Avisle

            O plano estava pronto para ser posto em prática. O grupo já sabia em que cela no quarto andar Lael estava trancado, onde ficavam guardadas as chaves e a que horas ocorria a troca de turnos, quando a prisão ficava momentaneamente mais vazia. Se tudo desse certo, eles entrariam, libertariam o bardo e sairiam em menos de dez minutos. Depois disso, dariam um jeito de provar que Vektem havia matador Keller e limpariam seus nomes.
            Jimhold, Azmuth, Draenis e Liana se esconderam próximo à entrada da prisão, aguardando o momento certo. O líder deu o sinal; o mago invocou um encanto que colocou as duas sentinelas do portão exterior para dormir e, antes que seus corpos caíssem no chão, o restante do grupo já havia tomado suas chaves e aberto o portão. Ninguém viu nada, porque os guardas que deviam estar patrulhando o pátio interno haviam entrado pouco antes do final de seu turno, como costumavam fazer.
            Liana entrou na frente e usou sua empatia natural com animais para acalmar os cães de guarda e impedi-los de dar o alarme. O resto do grupo a seguiu, atravessando o pátio. Todos contornaram o prédio rapidamente - antes que os novos vigias do portão interno saíssem para seu turno - para entrar pelos fundos, menos vigiados.
            A porta dos fundos não passava de uma pequena entrada de serviço, e estava sendo vigiada por apenas um guarda. Liana, furtiva como um gato, pegou-o desprevenido e o nocauteou antes que ele pudesse gritar. Deixando-o amarrado, amordaçado e escondido, os aventureiros roubaram suas chaves e entraram,
            Os vigias e sentinelas carregavam apenas as chaves de entrada. As chaves de das celas eram divididas por andar e corredor e mantidas dentro de um armário em um dos escritórios administrativos. Felizmente, Jim já havia descoberto tudo isso mais cedo, quando entrou disfarçado na prisão. Mas a sala não estava vazia.
            O escritório era grande e possuia muitas mesas, mas havia apenas dois funcionários àquela hora da noite. Um deles roncava e babava com a cabeça apoiada na mesa; o outro organizava uma pilha gigantesca de documentos e registros.
            A voz de Draenis penetrou suavemente no recinto, entoando uma oração. Como clériga de Kunst (deusa da música, dança e artes), todas as suas preces eram melodiosas. O funcionário acordado teve apenas alguns segundos para ficar intrigado com a música, antes de sentir sua cabeça ficar leve e sua consciência flutuar no vazio. Estava sendo controlado.
            - Pegue as chaves do quarto andar, corredor oeste. – comandou Draenis.
            O homem levantou-se lentamente, caminhou até um armário de madeira com portas de vidro e pegou um molho de chaves pendurado em seu interior. Caminhou até a porta (onde estava parado o grupo), entregou as chaves e ficou esperando novas ordens, com a visão desfocada.
            - Obrigada. Agora volte à sua mesa e durma. Não se lembrará de nada quando acordar.

            Os aventureiros dispararam pelos corredores e escadas, em direção à cela de Lael. Não encontraram nenhuma patrulha do caminho, o que deixou Jim desconfiado. Mesmo a essa hora da noite, a prisão não deveria estar tão vazia, deveria? A missão estava fácil demais, e missões fáceis sempre deixam aventureiros experientes nervosos. Mas o líder resolveu não comunicar suas suspeitas aos outro; não queria preocupá-los à toa.
            Ao entrar no corredor oeste do quarto andar, Jim se lembrou de algo. Seu velho conhecido, que estava preso no início deste mesmo corredor.
            - Esperem um minuto. – falou o guerreiro, destrancando uma das portas.
            - Sabia que iria me salvar, seu velho bastardo! – disse Dalariok enquanto saía da cela, sorrindo maniacamente – Você sempre foi um sujeito decente.
            O grupo estava confuso; Jim não havia lhes falado nada sobre libertar outros prisioneiros.
            - Quem é esse? – perguntou Liana – Isso não fazia parte do plano.
            - Velho conhecido. – respondeu o líder – Sem tempo para explicar agora.
            - Me chamo Dalariok, e é um prazer acompanhá-los nesta empreitada. – apresentou-se o prisioneiro, fazendo uma reverência ridiculamente elaborada – E um prazer maior ainda não ser pendurado pelo pescoço, se me permitem ser honesto.
            - Chega de palhaçadas ou eu te jogo de volta naquela cela!
            - Ele sempre foi irritadinho...

            Os aventureiros chegaram perto do fim do corredor e pararam em frente à porta da cela. Jim enfiou a chave na fechadura e girou. A porta se abriu, mas revelou algo muito diferente do esperado. Ao invés Lael, havia uma pequena multidão dentro do pequeno ambiente: oito guardas amontoados; oito bestas apontadas diretamente para o portal. No meio, encontrava-se sentado um homem diferente, vestido com roupas elegantes e girando uma bengala entre os dedos. O nobre, Lorde Vektem, começou a falar:
            - Fim da linha, senhores. – disse, fingindo cortesia – Joguem suas armas no chão e entreguem-se, tenho mais duas dezenas de guardas subindo neste momento para prendê-los. Estão encurralados.
            - Onde está Lael? – perguntou Jim, sem largar as espadas. Era possível ouvir o som de muitos passos subindo as escadas; os guardas estariam ali em menos de um minuto.
            O nobre gargalhou.
            - Acha mesmo que sou tão tolo? Que não previ uma tentativa de resgate? Seu “amiguinho” foi movido para um lugar seguro, e será enforcado amanhã de manhã, conforme o planejado. Mas não precisam ficar tristes, estarão lá com ele, sobre o cadafalso. – Vektem parecia estar se divertindo muito – Agora façam a gentileza de entregarem suas armas e se renderem, por favor.
            - Por que está fazendo isso? – perguntou Jimhold, tremendo de raiva - Por que acusar nosso amigo?
            - Não temos tempo pra isso, idiota! – gritou Dalariok.
            Antes que qualquer um pudesse fazer qualquer coisa, ele pegou uma das lamparinas a óleo penduradas nas paredes e arremessou dentro da cela. O óleo causou uma pequena explosão e ateou fogo a três dos guardas. Os oito tentaram atirar suas bestas, mas a explosão os havia feito perder a mira, e apenas três virotes passaram pela abertura do portal, sem acertar ninguém. Jim e Dalariok arremessaram-se contra a pesada porta de ferro, e conseguiram mantê-la fechada por tempo suficiente para Liana trancá-la e quebrar a chave dentro. Isso não os deteria para sempre, mas ganharia algum tempo.
            Draenis e Azmuth fizeram menção de correr na direção das escadas, mas Dalariok os puxou de volta.
            - Estão loucos?! Os andares inferiores estão cheios de guardas! Por aqui!
            O velho conhecido de Jim os puxou na direção oposta, para o fim do corredor, onde havia apenas um beco sem saída e uma pequena janela com grades. Olhou para Azmuth, apontou para a parede e perguntou:
            - Consegue explodir isso?
            - O que?! – perguntou o mago.
            - Faça! – ordenou o líder. Os guardas já deviam estar no último lance de escadas.
            Azmuth conjurou uma bola de fogo, que estourou os tijolos de pedra e entortou as barras de ferro. Era o suficiente para passar uma pessoa.
            - E agora? – perguntou o mago.
            - Agora a gente pula! – respondeu Dalariok, gargalhando. Tomou impulso e saltou, na direção do mar.
            - Ele é louco?! – perguntou Draenis, tentando olhar para baixo. A escuridão não a permitia ver nada – Não podemos pular, são mais de dez metros de queda, e tem rochas no fundo...
            Os guardas viraram a curva do corredor, e começaram a atirar. Um virote acertou Jim no ombro e penetrou na armadura, enquanto outro errava Azmuth por centímetros. Liana puxou sua besta e começou a atirar de volta.
            - O que estão esperando?! – gritou o líder – Pulem logo!
            Draenis saltou, seguida de perto por Azmuth. Depois foi a vez de Liana e Jim se arremessarem em direção à água gelada e às rochas pontiagudas.

            As águas estavam geladas, e as ondas insistiam em jogá-los contra as pedras. Para piorar, todos exceto Dalariok estavam carregando armas e equipamentos pesados. Devido à escuridão, foi difícil todos se encontrarem dentro da água, mas, com a ajuda das luzes mágicas de Azmuth, todos saíram relativamente seguros. Estavam exaustos, escoriados, encharcados e tremendo de frio, mas vivos. 
            - Afinal, quem é você? – perguntou Liana a Dalariok, quando todos saíram da água em uma praia logo fora da cidade e se jogaram na areia.
            - Já disse, um velho conhecido do seu líder aqui. – respondeu – Ele nunca falou de onde aprendeu a lutar e tudo o mais?
            - Foi com você? – perguntou a ranger, surpresa.
            - Claro que não! – respondeu Jim - Eu e ele servimos juntos e fomos treinados juntos na milícia de Avisle. Mas ele se especializou em arco e flecha, o covarde... No final das contas, fomos expulsos juntos.
            - E por que foram expulsos? – perguntou Liana, sinceramente interessada.
            - Porque ele é louco, e sempre arrumava encrenca com nossos superiores. – respondeu o guerreiro – E eu acabava me envolvendo.
            - Eu posso ter feito algumas loucuras, mas você era o esquentadinho que nunca dava o braço a torcer. – retrucou o arqueiro, com seu típico sorriso maníaco no rosto.
            - Eu não fujo das coisas, como você. – respondeu Jim, ficando irritado – Você arrumava os problemas, e eu os enfrentava como um homem deve fazer.
            - Chega dessa discussão ridícula! – interrompeu Liana, balançando a cabeça decepcionada – Vocês da cidade são patéticos. Mas você; – apontou para Dalariok – O quão bom é com o arco e flecha?
            - Melhor do que qualquer um que você já tenha conhecido, linda.
            - E vai usar esse talento todo para nos ajudar a salvar nosso companheiro? – perguntou a ranger.           
            - Você está me devendo uma, por eu ter te libertado... – acrescentou Jim.
            - Pensei que já tivesse pagado minha dívida, salvando seus pescoços lá em cima. – o arqueiro apontou para o topo da prisão, levemente visível acima dos muros da cidade.
            - Ah, quer dizer que vai fugir de novo? Típico...
            - E se eu fugir, o que você vai fazer?
            - Chega! – interrompeu a ranger novamente – O sol já está para nascer, precisamos de um plano, e rápido!

Dia dois (sábado) – Manhã – Praça Principal de Avisle

            Tudo estava pronto para o enforcamento. Uma multidão de camponeses, artesãos, pequenos comerciantes e vadios em geral se amontoava a volta de um palco de madeira, sobre o qual se viam quatro forcas. Diretamente em frente ao cadafalso, e a uma distância não muito grande, erguia-se um pavilhão coberto, cheio de cadeiras forradas com seda onde se sentavam alguns nobres que também apreciavam assistir ao espetáculo. Entre eles, lorde Vektem girava sua bengala entre os dedos, não parecendo totalmente satisfeito.
            Os sinos do templo de Lucernus próximo começaram a badalar, anunciando que eram onze horas da manhã. Tambores começaram a rufar, anunciando o início do espetáculo. Era o dia da semana em que as camadas sociais mais baixas descontavam suas frustrações e abusos na forma de gritos de ódio, enquanto alguns dos nobres mais sádicos se deleitavam com sua dose semanal de sofrimento alheio.
            Oito prisioneiros foram conduzidos em fila pelos guardas para sobre o cadafalso. Entre eles, Lael. Usualmente seriam enforcados quatro de cada vez, mas, como o assassinato de um nobre era considerado um crime dos mais hediondos, o ladino foi separado dos demais condenados, para ser enforcado primeiro. Populares atiravam frutas e vegetais podres sobre ele, com uma fúria que nem eles mesmos seriam capazes de explicar o motivo.
            Lael foi forçado por um carrasco grande e barrigudo a ficar de pé sobre um barril. Tremendo de desespero, o ladino vomitou, fazendo os espectadores gargalhar. A última coisa que pensou ter visto antes de ter um saco de lona negra colocado sobre sua cabeça foi um rosto familiar no meio da multidão.
            O carrasco colocou a corda em volta do pescoço do ladino e apertou o nó; em seguida posicionou-se para puxar uma alavanca que abriria um alçapão sob o condenado. Os tambores tocavam cada vez mais rapidamente, acompanhando a ansiedade dos espectadores. Aconteceria a qualquer momento. A excitação era tão grande que ninguém, nem mesmo os guardas ou lorde Vektem, notou a movimentação de um punhado de pessoas encapuzadas em meio à multidão.   
            O carrasco puxou a alavanca, e Lael caiu. A corda se esticou. As mãos e pés amarrados, o ladino se sacudiu, começando a sufocar lentamente. Mas a agonia não durou mais do que poucos segundos. Uma flecha emplumada cruzou o ar com velocidade, e sua ponta larga acertou a corda, fazendo-a se romper. O ladino tombou sobre o cadafalso. O carrasco e os guardas, ainda confusos, fizeram menção de correr em sua direção, mas foram afastados por uma verdadeira chuva de flechas. Dalariok estava em pé sobre um telhado próximo, disparando dois projéteis de cada vez. Uma figura esguia e encapuzada saltou rolando sobre o tablado de madeira e agarrou Lael. Quando ela se levantou, seu capuz caiu, revelando um rosto feminino e uma longa trança negra. Mas apenas por um momento, pois, logo em seguida, uma nuvem negra mágica caiu sobre o palco, ocultando tudo.
            Vektem estava de pé, em fúria, gritando com o comandante da milícia e sacudindo sua bengala violentamente. Os guardas olhavam confusos para a fumaça negra, com as espadas nas mãos, sem saber o que fazer. Jim surgiu do meio da multidão, também encapuzado, e saltou sobre os guardas, puxando suas duas lâminas. Tentou abrir caminho até Vektem; queria matar o nobre desgraçado pessoalmente. 
            Azmuth e Draenis subiram também no cadafalso, enquanto mais guardas se aproximavam. O mago conseguiu afastar uma rajada de tiros de besta com sua magia, mas a luta se tornava a cada momento mais desesperada.
            - Por aqui! – o líder comandou a fuga através da multidão.
            O grupo o seguiu. O comandante da milícia, Allber Taviz conseguiu agarrar a clériga, mas Dalariok acertou-lhe uma flechada nas nádegas.
            - Isso é por ter me prendido, filho da mãe!
           
            Os aventureiros dispararam pelas ruas de Avisle, com a milícia em seu encalço. Empurravam cidadãos, atropelavam barracas de venda e cortavam caminho através dos becos e vielas que o guerreiro conhecia tão bem. Lael, ainda fraco demais para correr sozinho, teve finalmente o rosto descoberto e pode agradecer.
            - Pensei que eu estivesse morto. – balbuciou, sorrindo.
            - Por que as pessoas nunca me escutam? – perguntou Jim – Já falei que não deixo ninguém para trás!

            Algumas ruas depois, um grupo de guardas patrulhava uma esquina. Talvez por estarem armados e correndo desesperadamente, os aventureiros foram logo identificados como fugitivos, e a patrulha tentou bloquear a rua. Azmuth conjurou uma bola de fogo que os arremessou longe, e o grupo passou pelo meio da fumaça como um furacão.
            - Para... onde... estamos... indo? – perguntou Draenis, ofegando. Azmuth sequer conseguia falar.
            - Para nossa casa. – respondeu Jim, sorrindo.
            - Você é louco?! – perguntou Liana, atirando para trás com sua besta enquanto corria – Acha que podemos simplesmente nos trancar lá?
            - Não se preocupe. Azmuth e eu temos um plano pra esse tipo de situação...
            - Espero que seja um bom plano...

            Os aventureiros chegaram ao seu quartel general. Haviam conseguido alguns minutos de vantagem sobre a milícia, mas a essa altura esta já deveria imaginar para onde eles estavam indo.
            - Rápido, para o porão. – ordenou Jim quando eles entraram na casa.
            - O porão?! – perguntou Liana – Não acha que é o primeiro lugar onde irão nos procurar?
            - Ninguém além de nós conhece a existência desse porão. – respondeu Draenis, enquanto passava pela passagem secreta.
            - Ainda assim, vamos simplesmente ficar trancados aqui até que eles parem de nos procurar?
            - Confie em mim, caramba! – exclamou Jim – Eu já disse que tenho um plano!
            Enquanto falava isso, o guerreiro usou sua espada curta para remover um tijolo específico da parede do porão, revelando uma alavanca. Quando a puxou, outra passagem secreta se abriu, levando a um túnel.
            - Que túnel é esse? – perguntou Lael – Por que nunca nos contou sobre isso?
            - Porque não precisavam saber, oras! – respondeu o guerreiro, rindo – Esse túnel segue até fora da cidade. Mais especificamente, ele termina sob as raízes de um grande carvalho, nos bosques a leste. Agora, Azmuth, faça o favor de ativar aquele mecanismo.
            - Tem certeza? – perguntou o mago.
            - Tenho sim.
            - Mas todo o meu laboratório...
            - Que se dane o seu laboratório! – exclamou Jim – Você monta outro.
            O mago parecia contrariado, mas obedeceu. Encaixou seu cetro em um mecanismo na parede, e o ativou por magia. Um enorme estrondo vindo do andar superior fez as paredes e o teto tremerem, derrubando poeira. Todos, exceto Jim e Azmuth, se assustaram.
            - O que diabos você fez, maguinho?! – perguntou Dalariok.
            - Não me chame de maguinho, seu arqueiro louco de meia tigela! – respondeu o mago, com ar de superioridade – Eu implodi nossa casa e selei a passagem para essa câmara. Nós e nossos tesouros estamos seguros agora.
            - Eu disse que eu tinha um plano. – acrescentou Jimhold – Eu sempre tenho um plano...

            O grupo terminou esta aventura nada comum rastejando em um túnel. Estavam oficialmente banidos da cidade onde haviam se conhecido, formado o grupo e começado a atuar como aventureiros. Neste dia, juraram não se estabelecer mais em apenas um lugar. Pegariam apenas o que pudessem carregar, e viajariam de cidade em cidade, como aventureiros de verdade.
            - Sabe, esse poderia ser o nome do nosso grupo. – sugeriu Lael, enquanto todos rastejavam por um trecho particularmente estreito do túnel – Os Rastejadores!
            - Lael, meu caro... – respondeu Jimhold – Você e suas péssimas idéias...
             
FIM.
Por enquanto...


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