sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Aventura #3 - Fúria bárbara


Dia zero – Fim de tarde - Algum lugar na região noroeste de Lusitens

            Acusados de um crime que não cometeram por um jovem nobre ambicioso e vingativo, os aventureiros foram forçados a fugir da cidade de Avisle (onde mantinham sua sede) por um túnel subterrâneo. Assim começaram uma viagem em direção leste, uma jornada em busca de aventuras, sem rota ou destino certo.
            Depois de sua fuga, conseguiram comprar, em uma vila próxima, cavalos e uma carroça, onde agora repousava escondido um pequeno baú cheio de prata, ouro e jóias: todos os tesouros que haviam conseguido acumular e levar em sua fuga.
            Mais de uma semana de viagem depois, através de campos verdes e pequenos bosques ensolarados, avistaram uma pequena vila próxima à curva de um rio. A vila era espremida pela floresta de Wintstohr ao sul e as colinas ao norte, e cercada por uma paliçada de madeira, rodeada por um fosso profundo.
            - Por que será que uma vila tão pequena se dá ao trabalho de ser murada? – perguntou Lael, curioso.
            - Seu povo tem medo da floresta. – respondeu Liana, apontando para o sul – Temem o que desconhecem.
            - Não, não é por causa da floresta. – corrigiu Jimhold – As colinas ao norte daqui são habitadas por tribos bárbaras que desceram das montanhas. As vilas menores deveriam ser protegidas pelo Senhor das terras onde elas se encontram, mas na prática ficam à mercê dos invasores.
            - Espero que não aconteça nenhum ataque enquanto estamos aqui. – comentou o ladino – Não podemos contra uma tribo inteira.
            - Não garanto isso. – acrescentou a ranger – Seu grupo parece ter o dom de atrair os problemas.
            - Como qualquer outro grupo de aventureiros. – respondeu o guerreiro – Mas Lael tem razão, não gosto de lidar com bárbaros. Espero não ter que ver a cara de nenhum deles por aqui.
            O grupo apressou o trote em direção à vila, visando chegar antes dos anoitecer e esperando que nada de terrível acontecesse...
 
Dia zero – Noite – Vila de Concobar

            Os aventureiros aguardaram em frente à entrada da vila. O rosto de um homem apareceu sobre o portão, segurando uma lamparina a óleo.
            - Quem são vocês? – perguntou – E o que vieram fazer na vila de Concobar?
            - Somos apenas viajantes rumando para o leste. - Jim conduziu a conversa - Queremos apenas mantimentos e um lugar para passar a noite. Podemos pagar.
            - Não gostamos de pessoas armadas por aqui. - o homem não abriu o portão.
            - Não queremos causar problemas. - respondeu o guerreiro - Partiremos o quanto antes.
            Antes que o homem de expressão carrancuda pudesse se negar novamente, outra voz, também masculina, porém mais idosa, passou por sobre o muro.
            - Deixe disso e abra logo o portão, meu jovem. Onde estão suas boas maneiras?
            - Só estava sendo cuidadoso, senhor Adulfo. - respondeu o jovem, abrindo o portão - Não sabemos se eles são confiaveis.
            - Você está certo em ser cauteloso, é claro. - disse o mais velho, sorrindo enquanto o portão era aberto - Mas pode voltar à sua patrulha, eu me encarrego destes jovens viajantes.
            - O senhor é quem sabe, senhor. Tome cuidado.
            Adulfo era um típico senhor de meia idade; baixo, curvado, e com uma fina camada de cabelos brancos. Vestia roupas simples, porém limpas, e apresentou-se como membro do conselho da vila.
            - Nossa pequena vila – disse ele enquanto conduzia os aventureiros ao centro da vila – é pequena e insignificante demais para atrair muita atenção. E o Senhor desta região a largou abandonada, preferindo cuidar de suas terras ao sul, mais produtivas. Por isso, nós mesmos nos governamos, e cuidamos de nossa subsistência e proteção.
            - Esse muro foi feito para protegê-los dos bárbaros das terras altas? – perguntou Draenis.
            - Exatamente. – respondeu Adulfo – Os selvagens invadem, roubam nossas já escassas colheitas e vão embora. Mas, graças a Concobar, nós conseguimos seguir com nossa vida.
            - Quem é Concobar? – perguntou Jimhold, curioso.
            - Concobar é nossa divindade protetora. – respondeu o ancião – Há muitos séculos atrás, Concobar foi um grande herói aventureiro, um feiticeiro de grande poder. Ele ergueu o marco fundador desta vila, uma pedra sagrada que protegemos até hoje.

            Os aventureiros chegaram ao centro da vila, um pequeno ajuntamento de poucas casas e estabelecimentos, tudo rodeando uma pequena praça circular com uma rocha vertical no meio. A rocha era negra e irregular, meio reflexiva e meio transparente. Media cerca de dois metros de altura e trinta centímetros de largura em seu ponto mais largo (próximo ao chão); devia funcionar durante o dia como o ponteiro de um relógio solar, pois a praça ao redor possuía marcações regulares. Havia um punhado de oferendas aos pés do marco.
            Não havia uma estalagem em Concobar, mas Adulfo havia oferecido ao grupo um lugar para dormirem em sua própria casa, a maior da vila e também a sede do Conselho. Antes de se recolher, no entanto, os aventureiros decidiram perder algumas horas bebendo e conversando na única taverna local.

Dia um – Madrugada – Taverna da vila de Concobar

            A taverna era um estabelecimento pequeno e modesto, usado apenas pela população da vila. Na noite em questão estava quase vazia, e não havia sequer um bardo tocando música. Os aventureiros estavam entediados, quase desistindo e indo dormir mais cedo. Bebiam a cerveja local (que, por sinal, era péssima) e conversavam sobre assuntos genéricos. Apesar disso, estavam todos lisonjeados com a hospitalidade de Adulfo, exceto Liana, sempre desconfiada a respeito de pessoas da cidade, e Draenis, que tinha um mau pressentimento. Porém resolveu não alarmar os demais a toa.
            De repente, um grito feminino de medo foi ouvido do lado de fora. Foi seguido por mais gritos, estes masculinos e de fúria, que se aproximavam rapidamente do centro. Os aventureiros saíram correndo para ver do que se tratava, com as mãos no punho das armas.
            Um pequeno grupo de bárbaros estava atacando a vila. Eram dez ao todo; jovens, altos e musculosos. Vestiam trapos feitos de peles de animais; estavam todos barbados e com pinturas de guerra no rosto e corpo, e portavam machados, clavas e maças. Os poucos camponeses que tentaram impedi-los foram rapidamente mortos e atropelados.
            Jimhold não precisou dar a ordem; todo o grupo puxou suas armas e teve início o combate. Draenis despejou suas bênçãos de força e agilidade sobre Jim e Liana, que partiram para cima dos bárbaros. Lael desapareceu em meio às sombras noturnas, Dalariok e Azmuth recuaram para cima de uma carroça, de onde o arqueiro começou a atirar flechas e o mago aguardou o momento propício para invocar seus poderes.
            Dois bárbaros foram flechados antes de alcançarem o combate corpo-a-corpo. Um deles tombou, mas o outro continuou correndo, uma haste espetando de sua barriga. Jim bloqueou um golpe de machado com suas duas lâminas e chutou seu atacante na barriga, mandando-o para trás. Tentou cortar o pescoço do bárbaro com sua espada longa, mas ele era rápido e se abaixou. O guerreiro evitou por pouco um contra-ataque nas pernas.
            Um dos bárbaros encontrou uma caixa de madeira no chão e a arremessou contra Dalariok, fazendo o arqueiro cair da carroça. Outro começou a girar seu machado de cabo longo, forçando os aventureiros a se afastar. Os demais cercaram o grupo, preparando-se para atacar. Liana saltou à frente e passou com um rolamento por baixo do machado giratório, para em seguida cortar o tornozelo do bárbaro que o empunhava. O homem largou o machado e caiu de joelhos, e a ranger abriu-lhe o pescoço.
            Três selvagens partiram diretamente para cima dela, mas nesse momento Lael saltou de seu esconderijo e matou um deles com apenas uma facada no pescoço. Jimhold, adiantando-se com um salto, bloqueou os golpes dos outros dois e matou um com uma estocada no pescoço. Os dois grupos de combatentes se reagruparam.  
            Enquanto cinco dos bárbaros restantes pararam em frente o grupo, em posição de combate, um deles se afastou e começou a golpear a Pedra de Concobar com seu machado. O homem era jovem, alto e forte, com uma compleição sólida e levemente barriguda. Seu queixo quadrado era coberto por uma barba irregular e espetada, enquanto a maior parte de sua cabeça era raspada, deixando apenas uma faixa vertical de cabelo. Além de peles como roupa, usava uma corrente pesada de ferro ao redor do pescoço. Apesar da resistência da pedra, os golpes eram poderosos, e lascas negras começaram a voar, junto com o aparecimento de algumas pequenas rachaduras.
            - Não! – gritou Adulfo. Até aquele momento, ninguém sabia que ele estava por perto – Ele não pode destruir a pedra!
            Azmuth acenou com o cetro e o jovem bárbaro que golpeava o marco caiu no chão, paralisado. Os aventureiros partiram para cima dos demais selvagens, mas eles fugiram. Um deles ainda levou uma flechada de Dalariok nas costas, mas continuou correndo. Os habitantes da vila amarraram rapidamente o bárbaro caído e o levaram embora, enquanto Adulfo se aproximava dos aventureiros.
            - Heróis! – exclamou ele, de forma que todos os cidadãos - que agora saíam de suas casas - pudessem ouvir – É isso o que são! O que seria de nós agora, se não fosse por vocês?
            - Só cumprimos nosso dever. – respondeu Jimhold, com falsa modéstia.
            - Vocês merecem uma homenagem! – continuou Adulfo – O grande Concobar os enviou para nos proteger justamente na véspera de nossa comemoração mais importante! Amanhã, vocês serão os convidados de honra no banquete do Dia de Concobar, nosso protetor. E receberão uma homenagem especial! 
            - Nós ficamos lisonjeados, - respondeu Liana – mas pretendíamos seguir viagem amanhã de manhã...
            - Mas tenho certeza de que podemos mudar nossos planos! – interrompeu o líder – Afinal, não queremos ser desrespeitosos, nem nada.
            - E vai haver um banquete... – completou Azmuth.
         
Dia dois - Tarde - Vila de Concobar

            Os aventureiros passaram a noite na casa de Adulfo e, ao invés de partir cedo na manhã seguinte, decidiram ficar mais um dia. Estavam sendo tratados por todos na vila como reis; tomaram banho quente, comeram e beberam à vontade e tiveram suas roupas e armas lavadas e lustradas. Estavam todos encantados por serem tratados assim, exceto Draenis e Liana. A ranger tinha uma aversão natural a esse tipo de tratamento, enquanto a clériga pressentia algo de estranho naquilo tudo. Chamou o líder e o mago para uma conversa.
            - Gente, eu acho que deveríamos ir embora logo. - começou ela - Estou com um mau pressentimento.
            - Como assim? - perguntou Jim - Acha que os bárbaros vão atacar de novo? Podemos com eles.
            - Não são os bárbaros que me preocupam.
            - O que é então? – perguntou Azmuth
            - Estou desconfiada de que as pessoas dessa vila não estão sendo completamente honestas conosco. – respondeu a clériga, cautelosamente – Principalmente o Adulfo.
            - Nós salvamos a vila deles, eles estão gratos. – disse o guerreiro – Não vejo nada de estranho acontecendo.
            - Então por que os bárbaros atacaram ontem?
            - Para pilha as colheitas, ora. – respondeu o mago – Não é o que Adulfo disse que eles fazem?
            - Estamos no início do verão, não há colheita alguma para ser pilhada! – exclamou Draenis – E eles eram muito pouca gente para pilhar qualquer coisa. Além do mais, eles atacaram diretamente o centro da vila, e tentaram destruir aquela pedra esquisita que essas pessoas idolatram.
            - Ah, já entendi. – sorriu Jim – Você só está irritada porque o povo daqui idolatra um deus diferente do seu. Você sempre faz isso...
            - Não! – a clériga estava irritada – Eu tenho certeza, esse pessoal está escondendo alguma coisa. Eu posso sentir! E se vocês não vão me ajudar, eu vou descobrir sozinha!
            Draenis saiu batendo a porta. Jim e Azmuth não ligaram; estavam acostumados a crises semelhantes. Logo ela voltaria à calma e à razão.

            A clériga reuniu seus pertences e tentou sair da vila escondida no fim da tarde, para procurar algumas respostas. Antes que conseguisse, no entanto, foi surpreendida por Liana. A ranger estava no estábulo, com as espadas na cintura e a mochila nas costas.
            - Ah, é você? – perguntou Draenis, depois de levar um susto – O que está fazendo aqui?
            - Jimhold me falou sobre suas suspeitas. – respondeu Liana – Supus que você sairia sozinha para procurar algumas respostas.
            - Vou procurar os bárbaros. – disse a clériga – Eles podem saber de alguma coisa.
            - Imaginei que faria algo do gênero. – disse a ranger, sorrindo levemente – Tem certeza disso? Pode ser perigoso.
            - Não me importa. – respondeu Draenis – Farei assim mesmo, e você não vai me impedir. – tinha um olhar determinado no rosto.
            - Não estou aqui para te impedir. – Liana riu - Estou aqui porque vou com você.
            - O que?!
            - Também estou desconfiada de que estão escondendo alguma coisa de nós. – respondeu a ranger – Então não custa nada ouvir a versão dos bárbaros.
            - Avisou para algum dos outros onde estamos indo? – perguntou a clériga depois de algum tempo, sorrindo.
            - Apenas pro Lael. Mas ele tem instruções para manter segredo, e nos procurar apenas se não voltarmos até amanhã de manhã. – respondeu.
            - Então vamos. Antes que alguém apareça para nos impedir...  

            As duas abriram o portão sorrateiramente pelo lado de dentro e cavalgaram na direção norte, atravessando as plantações e entrando nas terras altas. Foram horas de procura em meio a um labirinto de colinas e rochedos por onde o vento passa uivando. Mas Liana, como qualquer ranger que se preze, era boa em achar rastros, e conseguiu, ao cair da noite, encontrar uma aldeia bárbara.
            O acampamento fora erguido sobre um ponto alto do terreno. Era um círculo precário formado por cerca de quarenta tendas rústicas de couro e peles (cada qual com tamanho, formato e decoração diferente) ao redor de uma grande fogueira. Aos pés do fogo havia uma pequena aglomeração de gente, e o perímetro do acampamento era marcado por hastes de madeira com ossos, peles e outros objetos macabros pendurados, provavelmente para afastar os maus espíritos. As duas aventureiras decidiram aproximar-se abertamente, com as mãos erguidas em sinal de paz.

Dia dois – Noite – Acampamento bárbaro

            Liana e Draenis caminharam lenta e silenciosamente por entre as tendas, sendo observadas pelos selvagens. Chegaram até a fogueira e se curvaram em frente ao homem que parecia o mais velho e sábio, em sinal de respeito. O homem devia ser um xamã; era muito magro, vestia peles pintadas e enfeitadas e sua barba e cabelos brancos eram longos, densos e cheios de penduricalhos. Carregava um cajado frágil de madeira, pouco mais que um galho seco com alguns ossos e objetos pendurados.
            O maior e mais forte dos homens - provavelmente o chefe guerreiro da tribo - aproximou-se das duas e perguntou, com uma voz trovejante e um sotaque carregado:
            - Quem são vocês? O que fazem aqui?
            - Somos viajantes. – respondeu Liana – Viemos perguntar algo importante à sabedoria de sua tribo.
            - Os fracos não podem fazer perguntas aqui. – respondeu o homem.
            - Sou mulher, mas não sou fraca. – respondeu a ranger calmamente.
            - Se quiser respostas por aqui, vai ter que provar sua força. – trovejou o chefe, apontando para Liana.
            - E como eu faço isso?
            - Você luta contra um dos meus guerreiros. Um contra um, sem armas.
            Como resposta, a ranger se ergueu e atirou as armas e equipamentos para o lado. Houve um frenesi entre os bárbaros; como poucos deles falavam o idioma comum de Ereb, Liana não compreendeu o que eles gritaram enquanto abriam um espaço circular para o combate. O chefe apontou para um dos bárbaros e o mandou avançar.
            O oponente de Liana devia medir dois metros de altura e pesar mais de cento e vinte quilos. Estava descalço e com o torso nu - revelando um corpo musculoso, peludo e cheio de cicatrizes de batalha - e sua barba e cabelos tinham anéis de ferro pendurados. A ranger não se intimidou; encarou-o nos olhos e fez um sinal para a luta começar. O bárbaro partiu para cima, desferindo socos cruzados que seriam capazes de derrubar um cavalo.
            Mas Liana era rápida e evitou os socos tranquilamente, movendo-se ao redor do atacante e deixando-o irritado. Aproveitando-se de uma brecha, a ranger girou todo o corpo e chutou a lateral do joelho de seu oponente, fazendo-o desequilibrar-se e cair de joelhos. Menos de um segundo depois, Liana acertou-lhe com uma joelhada na testa, fazendo-o cair de costas no chão de terra batida. O supercílio do bárbaro se rasgou, derramando sangue por metade do rosto. Mas o homem se ergueu gargalhando, como se aquilo não fosse nada. O combate não havia acabado.
            Percebendo a vantagem de seu peso, o bárbaro mudou de tática. Passou a tentar agarrar Liana, arrastá-la para uma luta no chão. A ranger corria de um lado para o outro, evitando as agarradas e desferindo socos inúteis no rosto quadrado de seu oponente. Por sorte, suas roupas não eram largas o suficiente para serem facilmente seguradas.
            De repente, após uma esquiva especialmente elaborada, Liana tropeçou e caiu de costas no chão. O bárbaro saltou com tudo em cima dela, visando prende-la contra o solo para terminar a luta. Mas a queda fora proposital. A ranger encolheu todo o seu corpo, apoiou as mãos no chão atrás da cabeça e depois se esticou completamente, chutando o queixo do oponente com ambos os calcanhares. O bárbaro caiu para trás no mesmo instante, nocauteado.
            - Já chega! – exclamou o chefe. Os demais bárbaros gritavam, enlouquecidos por Liana – Eu sou Danukk, chefe dos Curakka. Qual o nome de vocês?
            - Eu sou Liana do Povo da Floresta, e essa é Draenis, a clériga.
            - Vocês podem agora falar com o Xamã, e perguntar o que quiserem. O Xamã sabe de tudo.

            As duas sentaram-se com o xamã aos pés de uma fogueira menor, um pouco afastada do centro. Ele se apresentou como Dirakk, e pediu que elas perguntassem o que queriam tanto saber.
            - Alguns homens de seu povo atacaram a vila de Concobar há alguns dias. – perguntou Draenis, sem enrolação – Por quê?
            - Vila é amaldiçoada. – respondeu Dirak, coçando a barba – Homens tolos idolatram pedra do demônio.
            - O que quer dizer com isso? – questionou a clériga – Quem foi Concobar, na realidade?
            - Feiticeiro maligno, controlava poderes proibidos. – o velho banguela falava de forma pouco articulada, e com um sotaque quase incompreensível – Homens pegam outros homens e sacrificam na pedra, pra conseguir poderes dos demônios também.
            - Então é por isso que alguns de seus homens tentaram destruir a pedra ontem? – perguntou Draenis.
            – Mais do que isso: por que eles eram tão poucos, comparados ao número de guerreiros que eu vejo aqui? – observou Liana.
            O xamã demorou um tempo para responder. Ficou mexendo em seus pés descalços e sacudindo a cabeça de um lado para o outro. Murmurava alguma coisa ininteligível, que as aventureiras não sabiam se era a resposta. O pouco de seu rosto que era visível parecia ter uma expressão triste e decepcionada.
            - Homens Curakka têm medo do poder dos demônios. – respondeu, por fim – Sabem que ferro não é bom contra magia. Não têm coragem de invadir vila.
            - Então por que alguns invadiram ontem? – perguntou Draenis.
            - Jovens. Não têm medo de nada. – respondeu Dirakk – Mas só cinco voltaram. Quatro morreram. E homens da vila pegaram filho do chefe Danukk. Vão sacrificar hoje.
            - Sacrificar? – perguntou a clériga, apavorada – Hoje?
            - Quando a lua estiver alta no céu, vão entregar pro feiticeiro comer.    
            Uma agitação no meio do acampamento interrompeu a conversa. Danukk aproximou-se da fogueira onde as aventureiras estavam reunidas com o xamã. O chefe carregava um jovem loiro de pele muito branca pelo braço. O bardo Lael.
            - Esse diz que veio atrás de vocês. – trovejou o chefe.
            - Solte-o, por favor! – implorou Draenis – Ele é nosso amigo.
            Danukk arremessou Lael de cara no chão. O bardo levantou-se cuspindo terra.
            - Draenis, Liana! É horrível! – gritou ele – Aconteceu não muito depois que vocês saíram!
            - O que?! – perguntaram as duas, em coro.
            - Adulfo e o conselho da vila... – respondeu Lael, tropeçando nas palavras – ...capturaram nossos companheiros!
           
            - Vocês TÊM que fazer alguma coisa! – exclamou Draenis com Danukk.
            - Temos uma regra: não chegamos perto da vila maldita. – respondeu o chefe.
            Os bárbaros se recusavam a invadir a vila e ajudar Draenis, Liana e Lael a salvar o resto do grupo. A clériga estava tentando apelar para seu líder guerreiro.
            - Mas se não fizermos nada, nossos amigos serão mortos! – ela estava desesperada.
            - Isso não é problema nosso. – respondeu Danukk.
            - Draenis, vamos embora. – chamou Lael – Eles não vão nos ajudar. Precisamos nos apressar se quisermos chegar lá antes da meia-noite.
            - Espere. – a clériga voltou-se novamente para o chefe – Você diz que isso não é problema de vocês. Mas e o seu filho?
            Danukk inchou de raiva, e quase partiu para cima de Draenis.
            - Não precisa me lembrar que meu filho está morto! – gritou ele.
            - Não está morto... – apesar de fraca, a voz do xamã foi ouvida acima da agitação do lugar.
            - Como assim não está morto? Ele não voltou com os outros...
            - Jovem Garrukk foi capturado vivo. Ser sacrificado hoje junto com os companheiros destes três. – respondeu Dirakk, indicando os aventureiros.
            Danukk emudeceu, e ficou mirando o vazio por algum tempo. Então um calor pareceu subir gradualmente por seu corpo; seus punhos cerraram e seus músculos começaram a pulsar. Um ruído baixo saiu de sua boca, e foi crescendo até se tornar um urro. O chefe bárbaro começou a gritar para os outros em sua própria língua, enquanto o xamã traduzia para os aventureiros, gargalhando.
            - Companheiros! Há mais de cem invernos somos atormentados pelos adoradores do feiticeiro. Sempre tememos seus poderes das sombras, acreditando que não éramos capazes de enfrentá-los. As outras tribos, nossos irmãos, ainda os temem. Não nós! Não mais! De que servem esses músculos e esse ferro, se vivemos com medo como ratos? Não somos ratos! Somos ursos! Eu digo que vamos pegar nossos cavalos, descer até aquela vila e derrubar seus muros! Vamos pegar a pedra do feiticeiro e transformar em pó, e jogar o pó ao vento! Vamos, companheiros! Vamos, ursos!
            Cada homem, mulher, criança ou animal naquele acampamento soltou um urro selvagem e poderoso. Os guerreiros começaram a pegar suas armas, pintar seus rostos e corpos e vestir suas peles negras de urso.      
            - Vão na frente. Salvar seus amigos. – falou o xamã aos aventureiros – Homens Curakka chegam depois.
            Os três cavalgaram para o sul como se não houvesse amanhã.

Dia dois – Próximo à meia-noite – Vila de Concobar

            Liana, Draenis e Lael deixaram os cavalos a uma distância segura da vila e pularam o muro silenciosamente, olhando para a lua. Ainda não estava no ponto mais alto do céu.
            O centro da vila estava totalmente quieto, incluindo a praça com a Pedra de Concobar. Cada janela estava fechada e apagada, mas um punhado de pessoas se esgueirava pelas ruas, como se vigiassem. Os aventureiros passaram por cada um deles furtivamente, evitando perder tempo desnecessário com lutas, e rumaram diretamente para a sede do Conselho. Tinham certeza de que ali era o lugar.
            Entraram pela janela, percebendo logo que a construção parecia vazia. Mas Lael começou a vasculhar o piso térreo, e não teve dificuldade em encontrar uma passagem secreta; uma escada estreita de pedra que se abria debaixo de uma estátua de Concobar e levava ao subterrâneo. Desceram.
            Não muito abaixo, chegaram a um pequeno hall, iluminado por lamparinas a óleo. O lugar estava vazio, e havia apenas uma porta. A porta era dupla, toda trabalhada e possuía duas ricas maçanetas de ouro. Lael espiou pelo buraco da fechadura e relatou às duas o que havia do outro lado.
            A sala era enorme, e estava abrigando com folga cerca de cinquenta homens e mulheres. Na extremidade oposta havia um altar negro, talhado na raiz da pedra de Concobar, aparentemente muito maior do que o pedaço visível na superfície. Devido ao ajuntamento de pessoas não era possível perceber muito mais coisa, apenas que o ambiente estava na penumbra e a pouca luz provinha de um ponto no chão logo à frente do altar. Seis pessoas estavam de costas para ele e de frente para os outros e a porta. Esses seis puxavam uma série de orações em uma língua estranha, e todos os demais acompanhavam em coro.
            De repente, um raio de luar atravessou a pedra negra, desenhando uma linha prateada em seu interior. Todos os presentes soltaram uma interjeição de frenesi, e uma das seis figuras principais exclamou (com uma voz que podia ser reconhecida como a de Adulfo):
            - É hora! Tragam o primeiro sacrifício!
            Quatro vultos desapareceram por uma porta lateral (na qual Lael não tinha reparado até o momento) e voltaram dentro de um minuto, conduzindo o bárbaro Garrukk preso por correntes. Ele tentava se libertar, mas parecia estar mais fraco do que deveria. Os cultistas o atiraram em uma pequena gaiola, que penduraram com corrente sobre a fonte de luz vinda do chão. As orações recomeçaram.
            - Precisamos de um plano, e rápido! – murmurou Liana.
            - Mas... Normalmente é o Jim quem faz os planos... – respondeu Draenis, insegura.
            - O Jim não está aqui. Portanto nós é que temos que resolver isso.
            - Certo! – respondeu Draenis, pensando – Nossos companheiros devem estar naquela sala de onde eles tiraram o bárbaro. Se Liana e eu causarmos uma grande distração, Lael pode tentar me esgueirar até lá e libertá-los.
            - E depois? – perguntou o ladino – Mesmo com a ajuda deles, ainda estamos em uma desvantagem numérica enorme. Se eles realmente tiverem poderes demoníacos...
            - Bem, já temos algo com o que começar. – respondeu a ranger – Teremos que nos preocupar com o resto depois, não temos muito tempo.
            - Então vamos! – falaram Lael e Draenis em coro.
           
            À medida que o culto prosseguia, seus participantes elevavam suas vozes e começavam a sacudir a cabeça e os braços em direção ao chão. A linha de luar no interior da pedra se transformou gradualmente em uma cascata de brilho prateado, anunciando a aproximação da meia-noite. Vendo isso, dois dos seis anciões do culto começaram a girar manivelas de ferro, que baixaram lentamente a jaula com o bárbaro em direção à fonte de luz no chão.
            Neste momento as portas se escancararam com um baque surdo. Draenis atirou para dentro as lamparinas, que se quebraram, espalhando fogo pelos tecidos e móveis de madeira do local. Enquanto isso, Liana disparava seguidamente com sua besta, visando os anciões. Depois de conseguir matar dois deles, a ranger guardou a besta, sacou as espadas curtas e saltou para dentro, distribuindo cortes. Lael aproveitou-se da confusão para esgueirar-se sorrateiramente pelo canto da parede e entrar na saleta lateral. No caminho, viu sobre o que pairava a jaula com o bárbaro: um fosso perfeitamente circular de cerca de dois metros de diâmetro, com magma borbulhando no fundo.
            Enquanto Liana e Draenis ganhavam a maior quantidade de tempo possível, os quatro anciões tentavam lançar maldições contra as duas. Mas a ranger era rápida, e tomou o cuidado de sempre ter bloqueada a linha entre elas e os oponentes. 

            - É hora de retribuir o favor por terem me salvado da forca, amigos. – falou Lael, sorrindo enquanto destrancava as celas de Jimhold, Azmuth e Dalariok.
            - Lael, seu ladrão desgraçado! – riu o líder, pondo-se de pé com alguma dificuldade e indo procurar seus equipamentos, que estavam em um canto da saleta – Liana e Draenis estão bem?
            - Vamos nos apressar em sair daqui, e então você pode perguntar por si próprio. – respondeu o bardo.
            - Me lembre de pedir desculpas a Draenis por não ter dado ouvidos às suas suspeitas. – falou Azmuth, recuperando seu cetro.
            - Sabia que você era bom, baixinho! – exclamou Dalariok para Lael, acariciando seu arco longo – Vamos logo, ta na hora do meu arco querido assoviar!

            Alguns dos cultistas pegaram em armas mantidas no local e conseguiram reagir à distração de Liana e Draenis. Jimhold adentrou a sala em tempo de ver a ranger ser derrubada com dois cortes seguidos nas costas. Com uma fúria vermelha subindo aos olhos, o guerreiro partiu para cima dos que a estavam atacando, brandindo suas duas espadas. As pessoas próximas tentaram se afastar, mas três delas tombaram sob as lâminas.
            O grupo todo veio atrás de Jim. Enquanto lutavam, Lael libertou Garrukk da jaula e Dalariok entregou-lhe seu machado. O bárbaro agora lutava ferozmente, girando o machado em todas as direções.
            Mas mesmo com todos lutando desesperadamente, não havia como vencer. Os inimigos eram muitos, e os quatro anciões sugavam as energias dos aventureiros, fazendo-os fraquejar. Sob o comando de Jim, eles recuaram rapidamente para a saleta/prisão e se trancaram lá. Liana e Lael precisaram ser arrastados, de tão feridos que estavam. Dalariok estancou um sangramento no braço amarrando um pedaço de pano, ainda de bom humor. Jimhold mancava de uma perna e tinha um corte feio no queixo, mas estava bem. Garrukk ignorava seus múltiplos ferimentos.
            Os cultistas tentavam derrubar a porta com magia, e Azmuth os enfrentava pelo lado de dentro. Havia ainda mais de trinta inimigos do lado de fora em condições de lutar, incluindo Adulfo e outros dois dos anciões. Estavam furiosos, gritando como Concobar torturaria os aventureiros por toda a eternidade. 
            - Estamos perdidos, não é? – perguntou Lael a Jim. Ambos estavam sentados com as costas apoiadas em uma parede, esperando os cultistas derrubarem a porta e preparando-se para a luta final.
            - Não diga isso! – respondeu o líder, enquanto observava Draenis curar Liana com uma luz sagrada que emanava de suas mãos – Ainda não acabou.
            Lael mirou o chão durante algum tempo, sem consolo. De repente, um barulho muito alto veio da câmara ao lado, acompanhado pelo som de gritos. O ladino ergueu-se com um salto, parecendo novamente esperançoso.
            - Os bárbaros! – exclamou – Não acredito que me esqueci dos bárbaros!
            - O que tem os bárbaros? – perguntou Azmuth, confuso.
            - Meu povo veio lutar. – a voz grave de Garrukk se fez ouvir pela primeira vez. Tinha uma leve nota de orgulho.
            Os aventureiros escancararam a porta e adentraram o templo profano, em tempo de se unirem aos guerreiros Curakka para o combate final.

Dia três - Início da madrugada - Templo de Concobar

            Os bárbaros derrubaram as portas e invadiram urrando, com seu líder à frente. Os mais de trinta cultistas que ainda estavam em condições de lutar partiram para cima, e foram pegos desprevenidos e pelas costas pelo grupo de aventureiros. Garrukk avançou diretamente contra Adulfo, mas este subiu no altar e começou a clamar por Concobar.
            Apesar de alguns bárbaros terem tombado frente os poderes mágicos dos dois anciões restantes, o combate contra os cultistas estaria ganho em uma questão de minutos. Mas Draenis não estava prestando atenção nisso. Olhava fixamente para Adulfo, aterrorizada.
            - Jim! – gritou ela, apontando para o altar.
            O líder dos cultistas ainda clamava pelo poder de Concobar, mas agora se contorcia de dor, enquanto uma gosma negra escapava por seus ouvidos, narinas e boca com um som perturbador. Gradativamente, sua situação começou a atrair a atenção de todos os presentes.
            Então começou a transformação. Os olhos de Adulfo explodiram em gosma negra; seu corpo começou a murchar e se alongar, assumindo a aparência de um esqueleto deformado, coberto com uma carapaça de espinhos. Cresceu até uma altura de mais de dois metros, enquanto dezenas de pequenos tentáculos negros cobertos de pus irrompiam de sua boca e de pústulas espalhadas pelo corpo, movendo-se de forma perturbadora.
            Todos, amigos ou inimigos, largaram as armas, levaram as mãos ao rosto e tentaram fugir, em pânico. Os aventureiros, Garrukk e Danukk permaneceram, mas com muita dificuldade: Draenis caiu de joelhos, Dalariok derrubou o arco, Lael vomitou no chão e Liana amparou-se na parede. Dirakk, o Xamã estava sentado despercebido em um canto escuro, observando a criatura com o queixo apoiado nos joelhos.
            O monstro que outrora fora Adulfo caminhou lento e torto em direção ao grupo, girando os tentáculos e flexionando as garras. Flechas e virotes de besta atirados por Liana, Lael e Dalariok começaram a atingi-lo, juntamente com chamas conjuradas magicamente por Azmuth. Mas os projéteis cravavam-se inutilmente em sua carapaça, enquanto as lanças de fogo não pareciam surtir qualquer efeito.   
            A criatura saltou sobre Danukk, derrubando-lhe ao chão e atirando seu machado longe. Jim e Garrukk conseguiram move-la atirando seus corpos contra ela, mas a gosma que recobria se corpo era ácida. O guerreiro e o bárbaro se afastaram, urrando de dor por causa das queimaduras. Draenis ajoelhou-se ao lado do chefe bárbaro para cuidar de seus ferimentos, mais sérios que os dos outros dois.
            Azmuth explodiu a centímetros do monstro uma poderosa bola de fogo, que fez a sala inteira tremer e ameaçar desabar. A criatura era imune ao fogo, mas foi arremessada pela onde de choque da explosão e chocou-se violentamente contra uma parede. Sem um segundo de descanso, começou a receber golpes de Jim, Liana e Garrukk. As lâminas das espadas eram inúteis, mas o pesado machado do bárbaro começou a esmagar a carapaça da aberração, fazendo-a gemer e cuspir gosma ácida em todas as direções. Finalmente, acertou um golpe de garras em Garrukk que arremessou o bárbaro longe. Draenis aproximou-se imediatamente para curá-lo.
            Jim e Liana recuaram estrategicamente. Enquanto olhavam, uma gosma escura e avermelhada brotou dos ferimentos infringidos por Garrukk à criatura e começou a regenerá-la lentamente. Parecia impossível matar tal aberração.
            Soltando um poderoso urro animalesco, Danukk – o corpo coberto de marcas de queimadura - saltou à frente e abraçou o corpo do monstro junto ao seu. Ignorando a gosma ácida e as garras que atravessaram facilmente sua pele de urso, o chefe bárbaro esmagou lentamente a criatura que se debatia desesperada e a arrastou em direção ao poço de magma. Conseguiu chegar próximo, mas o monstro se desvencilhou e o atirou longe.
            A jaula de ferro pendurada por uma corrente voou em direção ao outrora Adulfo, atirada por Garrukk. A aberração tremeu por um momento, sendo atingia por mais flechas e virotes, e então caiu para trás. Seus pés já estavam sendo derretidos pela lava, mas ela ainda estava agarrada na borda e começou a tentar escalar.
            Draenis, a clériga, aproximou-se, exalando uma confiança plena e calma que nunca havia sido vista em seu olhar. Suas mãos irradiavam uma luz branca e poderosa que fazia os tentáculos da criatura se retrair, e ela cantava uma prece em voz baixa. A clériga aproximou suas mãos espalmadas da cabeça do monstro, o que o fez se soltar da borda do poço, apavorado. Todos assistiram enquanto a aberração em que Adulfo havia se transformado era lentamente consumida pelo magma.

Dia três – Manhã – Antiga vila de Concobar

            Depois de algumas horas de esforço conjunto de Draenis e Liana, todos os aventureiros tiveram sua saúde quase completamente restaurada. Danukk, apesar te ter sofrido os ferimentos mais profundos, conseguiu se recuperar, dando uma prova da enorme vitalidade de seu povo.
            Descobriu-se que nem todos os habitantes da vila tinham conhecimento do culto secreto e da verdadeira natureza de Concobar. Às crianças e aos inocentes foi permitido migrar para outros lugares. Os cultistas foram todos exterminados sem dó pelos bárbaros. A vila em si foi saqueada pelos Curakka e depois destruída, especialmente o templo maldito e seu fosso de magma. A Pedra de Concobar foi, de fato, transformada em pó e atirada ao vento.

            - Em nome de todo o grupo, eu gostaria de te pedir desculpas, Draenis. – falou Jim, reunido com os demais aventureiros – Desculpas por não termos dado ouvidos às suas suspeitas.
            - Peça desculpas por vocês. – disse Liana – Eu acreditei nela desde o início. Talvez você não seja um líder tão bom quanto pensa...
            - Não vou tolerar que questione minha autoridade! – exclamou o guerreiro.
            Draenis sorriu. Jim e Liana brigavam, Dalariok gargalhava sozinho, Azmuth – sempre alheio - lia seu livro e Lael era o único que parecia realmente preocupado com a briga. Tudo voltara ao normal.
            Um homem grande e forte se aproximou do grupo. Era Garrukk, que largou seu enorme machado no chão e ajoelhou-se, baixando a cabeça.
            - Meu povo será eternamente grato. – falou.
            - Certo, certo, - respondeu Jim – Levante-se, homem! Não sou um rei, não precisa se curvar pra mim.
            - Quero pedir mais um favor. – acrescentou o bárbaro, sem se levantar.
            - Diga logo. – respondeu o guerreiro – Mas não prometo nada...
            - Quero pedir permissão para me juntar ao seu grupo.
            - Você é filho do chefe da tribo, e deverá substituí-lo um dia. – questionou Azmuth, lentamente – O que ele pensa disso?
            - Meu pai acha uma boa idéia eu viajar e me tornar mais sábio e poderoso antes que possa voltar para liderar meu povo. – respondeu Garrukk, erguendo a cabeça.
            Jimhold considerou por um momento, encarando o bárbaro no fundo dos olhos. Não tinha certeza da decisão a ser tomada, mas resolveu (como sempre) confiar em seus instintos.
            - Você é um de nós agora. – deu sua resposta, pousando seu punho simbolicamente sobre a cabeça de Garrukk – A partir de agora viajará conosco, obedecerá à minha liderança e receberá uma parcela igual de tudo o que este grupo conseguir ganhar. Entendido?
            - Sim, senhor.
            - Me chame de Jim. – acrescentou o guerreiro – Partimos depois do almoço; tem até lá para arrumar suas coisas e se despedir de sua tribo.

Dia três – Meio dia – Antiga vila de Concobar

            - Afinal, o que aconteceu com Adulfo? E quem DE FATO foi Concobar?
            Jimhold conversava sozinho com o xamã Dirakk, enquanto o resto do grupo fazia os últimos preparativos para partir. O xamã o encarou por um tempo antes de responder.
            - Concobar não era feiticeiro comum. Mexia com coisas proibidas. Coisas de outros mundos. Coisas além da compreensão dos homens. Adulfo recebeu um vislumbre dessas coisas. Mas era fraco demais. Não resistiu, foi corrompido. E transformado.
            - Como você sabe de tudo isso? – perguntou o guerreiro, depois de algum tempo em silêncio.
            - Sempre foi trabalho dos xamãs olhar pros outros mundos. – respondeu o velho, rindo misteriosamente – Um dia descobrirá mais. Um dia...

FIM.
Por ora, por ora... 

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